Santidade e missão: a finalidade do nosso instituto

1. “A vontade de Deus é que vivais consagrados a Ele” (1Ts 4, 3). Deus exige a santidade, e pede-a a toda a gente, mesmo aos simples cristãos, que a podem conseguir pela observância dos mandamentos da lei de Deus e da Igreja, pondo em prática as virtudes cristãs e cumprindo rectamente os de veres do próprio estado. se essa é a vontade do senhor para com todos os cristãos, que dizer de nós próprios, os que recebemos de Deus a mais santa das vocações?

Que sejais santos! Este é o meu principal desejo, a minha preocupação constante. De facto, não basta ter recebido de Deus uma vocação tão especial, nem mesmo apreciar a sua preciosidade e os seus benefícios. é preciso valorizá-la caminhando na via da perfeição que tal vocação exige. Portanto o nosso ideal é tornarmo-nos santos, grandes santos, e santos rapidamente.

Enquanto religiosos e religiosas, tendes o dever estrito de corresponder à vossa vocação. não quer isto dizer que deveis já ser santos ao entrar no instituto, mas sim que deveis esforçar-vos continuamente, com todas as vossas forças, por atingir a santidade. Como sacerdotes ou aspirantes ao sacerdócio, sois chamados a uma santidade ainda maior. são Paulo exigia que os pastores do povo de Deus fossem irrepreensíveis e exemplares em todas as virtudes (cf. Tt 2, 7). Como missionários e missionárias, o vosso ideal não é então o de apenas ser santos, mas santos em grau superlativo. é para isso que estais aqui; é esse o vosso primeiro dever, a finalidade da vossa vocação e o primeiro instrumento de apostolado. A vossa santidade deve ser especial, mesmo heróica e, quando necessário, capaz de fazer milagres. não vos basta ter outras qualidades. Precisais de ter santidade, grande santidade.

2. Interiorizar a finalidade do instituto. A finalidade primária do Instituto é a santificação dos seus membros. quem entra aqui, entra para viver esta finalidade. nas Constituições[1] o ponto sobre a santificação dos membros não foi inserido ao acaso; foi para se tornar uma realidade na vida prática. As vossas Constituições não desceram do céu; mesmo assim têm a mesma autoridade como se de lá tivessem vindo. são fruto da experiência; foram estudadas com muita seriedade, consultando muitas outras regras. são fruto de muitas orações especiais; e, finalmente, foram analisadas e completadas pelas autoridades eclesiásticas. Aceitai-as como vindas directamente das mãos de Deus. Este espírito de fé ajudar-vos-á a estimar e observar cada palavra com fidelidade e rectidão.

Se quiserdes mesmo ser santos, o Instituto dá-vos os meios necessários. Até mesmo as vossas limitações e as dos outros membros vos podem servir de ajuda. Como afirma são Paulo: “sabemos que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu projecto” (Rm 8, 28). E vós estais entre aqueles que foram chamados à santidade – e mais ainda, a uma santidade toda singular. Portanto, fazei com que tudo coopere para o vosso bem, mesmo os vossos defeitos e os dos outros.

Reparai que as Constituições foram escritas no plural: santificação dos missionários e das missionárias. Tudo no Instituto tem a finalidade de vos ajudar a ser santos. não só alguns, mas todos. Por isso, cada um de vós deve empenhar-se não apenas em ser santo, mas também em ajudar os outros a serem santos. quer dizer que toda a comunidade deve empenhar-se no bem de cada um; e que cada membro se deve empenhar no bem de toda a comunidade. se um de vós não se torna santo, não só causa mal a si mesmo como também a todo o Instituto, porque torna vã a sua finalidade. Às vezes acontece que este ou aquele só pensa em si mesmo, sem querer saber de ajudar os outros. Isso é contrário ao espírito de família que é tão importante numa comunidade, visto que estimula todos os membros a santificarem-se a si próprios e a ajudarem os outros a santificarem-se. sim, cada um deve tornar-se santo, mas é preciso que haja ajuda recíproca. Devemos mesmo considerar a santidade dos outros como sendo nossa também.

Nem deveis deixar-vos arrastar pelos que são menos fervorosos ou por considerações puramente humanas. não digais nunca que não é vosso dever serdes os mais fervorosos na pontualidade e na observância das regras. Cada qual deve ser o primeiro a empenhar-se. se pretendo que os outros sejam perfeitos, é justo que também eu me empenhe em ser perfeito. se cada um fizesse este propósito, em breve seríeis todos santos. Todos, mesmo os últimos a chegar a esta casa, devem palmilhar com decisão firme o caminho que leva à conquista das virtudes, sem medo de serem apontados a dedo como especiais ou estranhos.

3. Primeiro, santos; depois, missionários. Vós estais nesta casa para serdes missionários e missionárias da Consolata. nunca podereis sê-lo senão vivendo e trabalhando em conformidade com a finalidade do Instituto, que é a santificação dos seus membros e a conversão dos povos. E eu ando sempre a repetir-vos a mesma coisa: as almas salvam-se com a santidade [2]. querer tornar os outros bons sem o sermos nós primeiro é desejar algo impossível, pois ninguém pode dar o que não tem. Podemos administrar um sacramento sem sermos santos, mas converter as pessoas sem sermos santos não resulta. ordinariamente, Deus não concede a graça de tocar os corações a quem não vive uni do a ele por meio de um amor tão grande que quase pode pretender fazer milagres. Acreditai no que vos digo: quem não arde não é capaz de incendiar, quem não tem o fogo da caridade, não pode comunicá-lo aos outros. não devemos descuidar a nossa união com Deus, sacrificando a nossa própria santificação, a pretexto de nos dedicarmos aos outros.

Seria um erro dizer: “vim para me fazer missionário e isso me basta!” não, não basta, de maneira nenhuma. não podemos trocar os termos: primeiro, a nossa santificação, depois, a conversão dos outros. missionários e missionárias sim, mas santos. Cada um pense bem na obrigação que assumiu ao entrar para o Instituto: pense na voz de Deus que o chama a ser santo. Todos os dias, na santa comunhão e na visita a Jesus sacramentado, renovai o vosso propósito dizendo-lhe: quero fazer-me santo, grande santo, santo depressa. Posso, devo e, portanto, quero fazer-me santo. Por isso, sejamos primeiro santos, depois missionários.

4. Santos, mas não por capricho. A santidade a que deveis as pirar como missionários e missionárias da Consolata não deve ser uma santidade caprichosa, em que cada um faz aquilo que mais lhe apraz e convém; nem por sombras! A vossa santidade deve ser uma santidade que se torna real no estilo de vida proposto pelas Constituições e pelas directivas dos legítimos superiores.

Uma só é a santidade, mas várias são as maneiras e os caminhos para chegar a ela. Enganar-se-ia a si próprio quem, por exemplo, querendo ser religioso e missionário, quisesse seguir as regras da Cartuxa ou as dos sacerdotes diocesanos. Cada instituto tem o seu carisma particular e os seus meios de santificação próprios. Eu vejo na vossa comunidade uma santidade muito genérica e sem provas reais. Explico: vós sois bons, piedosos e obedientes quando tudo corre segundo a vossa vontade; mas quando vos fazem uma admoestação, quando os vossos desejos são contrariados, aflora imediatamente a fraqueza da vossa virtude. A santidade exige energia. Como diz a Imitação de Cristo: “os progressos que fizeres serão tanto maiores quanto maior for a violência que fizeres a ti próprio”. Eu quero que a vossa santidade seja uma coisa séria e substanciosa, e não feita de solavancos. Portanto, seja este o vosso propósito: empenhar-vos prontamente e com todas as forças em alcançar a santidade verdadeira. não como quem vive de desejos efémeros, mas como gente que desafia as pequenas provas de todos os dias e pretende transformar cada uma delas em mais uma vitória. sede fortes, sede constantes na assunção da vida que escolhestes. não é quem começa bem que receberá o prémio, mas sim quem perseverar até ao fim.

5. Extraordinários nas coisas ordinárias. A santidade que eu quero em vós não é uma santidade que faz milagres, mas a santidade de quem faz tudo bem. lemos no evangelho que, depois do milagre da cura do surdo-mudo, as multidões, maravilhadas, diziam de Jesus: “…Faz bem todas as coisas” (Mc 7, 37). não vos parece que depois desse milagre a gente deveria antes ter exclamado, como aliás já tinham feito outras vezes, “vimos coisas prodigiosas”? (Lc 5, 26). mas em vez disso disseram: “Faz bem todas as coisas!” Com tais palavras deram a Jesus o melhor elogio de que eram capazes, afirmando que ele fazia tudo bem, não só as coisas extraordinárias mas também as mais simples e mais comuns. Estas palavras mereciam ser escritas em todas as paredes das nossas casas, e deveriam poder ser gravadas também nas lápides das nossas sepulturas: “Bene omnia fecit”.  “Fez bem todas as coisas”.

Já poucos anos me restam de vida, mas mesmo que fossem muitos, eu queria passá-los a fazer o bem e a fazê-lo da melhor maneira possível [3]. Tenho a mesma ideia que tinha o Pe. José Cafasso [4], que dizia: “o bem tem de ser bem feito e sem alarde”. é preciso fazê-lo prontamente, com diligência e de boa vontade. não basta rezar o terço, é preciso rezá-lo bem. quando estudamos, devemos estudar bem. quando trabalhamos, devemos trabalhar bem, e o mesmo se diga de todas as outras ações de cada dia. Abençoados os missionários e missionárias que, ao ajoelharem-se à noite diante do santíssimo sacramento, puderem afirmar no íntimo da sua consciência: “hoje, fiz bem todas as coisas!”. sintamos a alegria de nos tornarmos santos na vida normal de cada dia.

Nosso senhor, ao inspirar a fundação do nosso Instituto, inspirou também as práticas e os meios para atingirmos a perfeição e a santidade. os santos são santos, não porque fizeram milagres, mas porque fizeram bem todas as coisas. não deveis pedir a Deus a graça de fazer milagres, pois essa é uma graça que ele concede a quem quer e que não é necessária para a nossa santificação. não quero que esta casa se torne uma casa de milagres; temos de fazer muitas outras coisas antes de fazer milagres. o milagre a que deveis aspirar é o de fazer tudo na perfeição, desde que o dia começa até que acaba. o que escreveram acerca de são José Cafasso foi que ele “era extraordinário nas coisas ordinárias”. não temos muitas ocasiões de fazer coisas extraordinárias, mas as coisas ordinárias – as coisas simples e normais – acontecem todos os dias, e mesmo durante o dia inteiro. não me importa se administrastes 10.000 Baptismos; interessa-me que sejais óptimos missionários e missionárias, cheios de fervor, fiéis, exactos em tudo o que fazeis. Deveis ser superlativos em tudo. nada de fazer coisas extraordinárias, mas de ser extraordinários nas coisas ordinárias. Tornemo-nos santos sem fazer barulho. o importante não é fazer muitas coisas, mas fazer bem tudo o que se faz! Deus está presente tanto nas coisas grandes como nas pequenas.

6. Fazer bem o bem. E como é que se fazem bem todas as coisas? são José Cafasso oferece-nos algumas sugestões. A primeira consiste em fazer todas as coisas como as faria nosso senhor. Identifiquemo-nos com Jesus, façamos tudo como ele o faria, de maneira que seja ele a viver e a agir em nós. Habituemo-nos a perguntar: “se Jesus estivesse aqui no meu lugar, como é que se comportaria? se riam os seus pensamentos iguais aos meus, as suas palavras como as minhas, as suas acções iguais às minhas?” o meu desejo é que cada um de vós se torne uma imagem viva de Jesus Cristo. Todos os santos desejavam tornar-se imagens de Cristo. uma outra sugestão de são José Cafasso é: fazer cada acção como se fosse a última da nossa vida. Tudo o que fizerdes, fazei-o de modo a ficardes com a consciência tranquila, mesmo que a morte vos apanhe repentinamente. Por fim, fazei todas as coisas como se não tivésseis mais nada a fazer. “Age quod agis” – faz bem aquilo que fazes. o que significa pôr todo o empenho em cumprir o dever de cada momento, sem pensar no que se fez antes ou no que se fará a seguir.

Muitas vezes eu faço o seguinte exame de consciência: “o Instituto avança como deve ser, segundo a vontade de Deus?”. Fazeis todos as mesmas coisas, mas nem todos as fazeis da mesma maneira. Podemos dizer que a nossa santificação aqui na comunidade depende de como se fazem as coisas pequenas, de aparente pouca importância. Coisas grandes, essas acontecem poucas vezes; não são para todos e, ainda por cima, há o perigo de nos deixarem ensoberbados. Ao contrário, as coisas pequenas acontecem todos os dias, a todas as horas mesmo, e todos têm a capacidade de as fazer.

Examinai-vos diante de Deus: Estais convencidos de que se pode ofender a Deus mesmo em coisas pequenas? Sabeis bem o que é o pecado venial: uma mentirita voluntária; as distracções voluntárias na oração; a falta de caridade fraterna; e aquela repugnância voluntária pelos defeitos morais e físicos de certas pessoas; os pequenos ataques contra a pobreza e a mortificação; a falta de obediência aos superiores; as críticas e as murmurações – que são uma verdadeira peste na comunidade. não basta evitar estes males, por pouca importância que tenham; devemos ir mais além e fazer o bem por mais pequeno que ele seja. se não nos habituarmos a agir bem nas pequenas coisas, faremos o mesmo nas coisas grandes. quantos momentos não temos nós por dia para multiplicar estes pequenos actos de virtude! Deve portanto ser esta a vossa resolução: evitar todas as culpas voluntárias por mais pequenas que sejam e praticar todos os pequenos actos de virtude. são as pequenas coisas bem feitas que fazem com que uma comunidade se torne perfeita. os membros do nosso Instituto devem santificar-se por meio da sua fidelidade nas coisas pequenas. que Deus vos ajude a compreender estas coisas e vos fortaleça com a sua graça!

7. Evangelizar com a santidade da vida. um missionário e uma missionária devem ser santos que testemunham aos outros a própria santidade, e devem proclamar aos outros, mesmo por palavras, a santidade da sua vida. é preciso que a gente veja Deus nos missionários. Jesus disse aos após tolos: “quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9), e vós também deveis poder afirmar: quem me viu, viu Jesus. não bastam o hábito nem as palavras para revelar os verdadeiros missionários e as verdadeiras missionárias; é preciso que se manifestem através das obras. são as acções que dão testemunho do que  sois. Devemos dizer com Jesus: “mas Eu tenho um testemunho maior que o de João: são as obras que o Pai me concedeu realizar. As obras que faço dão testemunho de mim, mostrando que o Pai me enviou” (Jo 5, 36).

O demónio é verdadeiramente aquele “grande encouraçado” que pode dominar-nos com os grilhões das paixões e da superstição. Para o vencermos, não nos basta sermos enviados de nosso senhor Jesus Cristo: é também necessário possuir o espírito de santidade. Do missionário e da missionária exige-se que façam mais oração, mais mortificação, que tenham mais santidade – uma santidade extraordinária.

Quando nas missões os frutos são poucos, pode ser por nossa causa, por não sermos instrumentos adequados nas mãos de Deus. não digo que seja sempre assim, mas a verdade é que, se fôssemos verdadeiramente santos, o senhor servir-se-ia de nós para fazer maior bem. A conversão das almas é uma coisa totalmente sobrenatural. quanto mais íntima for a nossa amizade para com Jesus, tanto mais poderemos contar com a intervenção da sua graça no nosso trabalho. se depois de tantos séculos de apostolado uma grande parte da humanidade ainda não é cristã, será que não é também por causa desta falta de santidade? Convençamo-nos a sério da necessidade de sermos verdadeiramente santos!

8. Os santos são as pessoas mais felizes. quem se entrega totalmente ao senhor possui o bem-estar e a felicidade já mesmo aqui na terra. quanto mais fome e sede tivermos de santidade, quanto mais sentirmos fome e sede de Deus, tanto mais felizes seremos. os santos, que têm esta fome e esta sede, são as pessoas mais felizes. A paz interior e a alegria do coração que sentem são tão grandes que transparecem para fora e são comunicadas aos outros. nos relatos sobre são José Cafasso pode ler-se que bastavam a sua presença e algumas palavras dele para infundir a alegria no espírito de todos. De s. Vicente de Paulo diziam: “Vicente, sempre o mesmo Vicente!”, quer dizer, sempre alegre, sempre igual a si mesmo em todas as circunstâncias da vida. Com isto não quero dizer que tenhamos de ser indiferentes, que não devemos sentir nada; significa sim que o amor de Deus nos dá a coragem necessária para tudo suportar com alegria. quando uma pessoa tem o coração em paz, quando sen te o amor que Deus tem por ela, o que é que pode angustiar essa pessoa? Poderá tal pessoa repetir com são Paulo: “quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada?... mas em tudo isto somos mais do que vencedores por meio d’Aquele que nos amou” (Rm 8, 35-37).

9. Dar o primeiro passo com coragem. Devemos portanto tornar-nos santos, e temos de começar imediatamente, lançarmo-nos desde já à obra da nossa salvação. A graça que nos é dada hoje já não voltará a ser-nos dada amanhã. A graça que esbanjamos neste momento, nunca mais voltaremos a recebê-la. Receberemos outras graças, mas esta não, e disso teremos que dar contas a Deus. é preciso dar o primeiro passo com toda a coragem. Hoje, e não amanhã. Aqui e agora, nesta casa onde estamos.

Se desta casa sairdes tão-somente bons, certamente não vos tornareis melhores, nem vos tornareis santos depois. se não armazenardes aqui uma boa dose de virtudes, mais tarde nas missões, em vez de progredir, havereis de recuar no caminho da perfeição. é aqui que Deus dá a cada um de vós muitas graças específicas para a vossa santificação.

10. Na prática… Como ensina santo Inácio de Loyola, as pessoas que aspiram à perfeição podem dividir-se em três categorias. À primeira pertencem aqueles que têm um grande conceito da santidade, conhecem as suas exigências e sentem mesmo o desejo de ser santos, mas param por aqui porque não usam os meios para atingir a santidade. E isso transparece claramente da sua maneira de viver. uma coisa é saber e desejar, outra coisa é a prática. é verdade que santa Teresa de Ávila nos exorta a termos muitos e bons desejos, mas ela referia-se a desejos que se traduzem na prática, isto é, desejos acompanhados de boas obras. os que integram esta categoria têm uma vida repleta de graças mas não se aproveitam delas e, no fim, lá ficam eles de mãos a abanar…

A segunda categoria é a daqueles que não se contentam com simples desejos, mas que dão alguns passos em frente no caminho da santidade, infelizmente duma maneira muito pessoal e subjectiva. não são generosos; vivem amarrados àquilo que lhes é cómodo, não têm a coragem de saborear as consequências da pobreza e negoceiam com Deus. Estudam e trabalham, mas sem dobrar demais a espinha; obedecem, mas só até certo ponto; rezam, mas só o essencial. Basta-lhes ser bons, não querem ser santos demais.

Pertencem a esta categoria os inconstantes, isto é, aqueles que se esforçam por corresponder à chamada e amam as práticas de piedade e todas as virtudes. mas eis que surge um obstáculo, uma prova espiritual ou corporal, e logo desanimam, ficando encalhados no caminho dos bons desejos e dos bons propósitos.

A terceira categoria é a daqueles que não se esquivam a nada para se tornarem santos; não adiam esforços e colocam sempre todo o empenho e toda a perseverança em se santificarem. Tendo entrado no Instituto com a motivação correcta, a sua intenção é a de corresponder generosamente à graça de Deus sem jamais omitir coisa alguma que os possa conduzir à santidade. são pessoas generosas, fortes e constantes que, tendo feito o propósito de “atingir a finalidade” – ou seja, a santificação – vão em frente, mesmo por entre as provações, pondo sempre a sua confiança em Deus. o exemplo de como se comportaram os santos, e muito especialmente Jesus Cristo, ampara-os nas horas negras, que também eles devem atravessar. Destes diz santo Inácio: “Com espírito generoso, servem a Deus com todo o entusiasmo”. E isto até não é muito difícil. Consola-me pensar que muitos de vós pertencem a esta terceira categoria, e agradeço a Deus esta graça. não é que os deste patamar não tenham as suas limitações, e mesmo horas e dias de deserto, mas conservam sempre a vontade firme de se corrigirem, de corresponderem à graça e de se tornarem santos. Examinai-vos diante de Deus, procurando saber a qual destas categorias pertenceis. sendo religiosos e missionários, tendes o dever de avançar sempre para a santidade, e portanto todos tendes o dever de pertencer a esta terceira classe.

Atitudes na caminhada para a santidade

11. Vontade forte, enérgica e constante. Depois de considerarmos as razões para sermos santos, vamos agora reflectir  sobre algumas atitudes ou disposições necessárias a quem quer decididamente atingir a santidade. A primeira disposição é o desejo, a vontade plena, enérgica e constante de ser santo. A vontade “plena” não admite limites; não teme as alturas sublimes; para ela a santidade nunca é demais. Parece que há alguns que têm medo que os ponham nos altares! não pensemos nisso, esse problema não é nosso; e se por acaso acontecer, toca a outros interessar-se pelo caso. mas nós é para lá que devemos tender, para a santidade dos altares! ninguém diga: “A mim basta-me ser bom; deixo essas grandes aspirações para outros”. não, não senhor! os ares desta casa são iguais para todos, e são ares que produzem santos. não é presunção querer ser santo, grande santo mesmo. Presunção seria querer chegar lá sem a ajuda de Deus. Portanto, quem quiser pôr limites à sua santidade; quem pretender medir a sua correspondência à graça de Deus… pode ter a certeza de que nunca chegará nem sequer à santidade comum. não! Com nosso senhor não se negoceia: é tudo ou nada. ou nos tornamos santos como ele quer, ou nada feito!

A vontade “enérgica” é a daqueles que dizem a si próprios: “quero fazer-me santo com todas as forças, e portanto comprometo-me a ponto de quase ficar sem a liberdade de lá chegar ou não”. Então, sim, Deus dá-nos a sua ajuda. As vontades raquíticas, as meias vontades, nunca conseguirão fazer nada, não darão um passo que seja no caminho da perfeição. na vida espiritual, os preguiçosos são aqueles que ficam a balançar entre o querer e o não querer. o preguiçoso quer, e depois já não quer (cf. Pd 13, 4). Hoje sim, amanhã não. Confundem a vontade com o capricho. não se negam à santidade, mas na condição de não fazer sacrifícios.

A vontade “constante” é apanágio dos que nunca perdem a coragem. Infelizmente, a frivolidade é congénita. Precisamos sempre que nos sacudam. Basta um nadinha e ficamos logo desanimados; um pouco de aridez, um sacrifício um pouco mais duro, e pronto, lá estacamos nós na subida da vida espiritual. Durante aqueles longos anos de aridez espiritual absoluta, santa Teresa de Ávila não só não minguou na vocação, como nem sequer faltou a nenhuma das suas resoluções. E quantas provas não teve de suportar santa Margarida Maria Alacoque! A vida dela foi um verdadeiro labirinto de provas difíceis e dolorosas. mas nunca perdeu o norte; tudo superou com extrema constância. se estas santas mulheres conseguiram perseverar no meio de tantos sofrimentos, por que não podemos nós fazer o mesmo nas nossas pequenas renúncias, nos actos de fé que a nossa santificação nos pede? A graça de Deus, que ajudou estas santas e todos os outros santos, nunca nos há de faltar, e com ela poderemos também nós atingir o mais alto grau de santidade.

12. Confiança em Deus. o segredo de todos os santos foi este: confiar em Deus e desconfiar de si próprios, sem nunca se perderem a coragem por causa das suas limitações ou por se encontrarem sempre bastante longe do ideal que almejavam atingir com todas as forças. Também nós não devemos perder a coragem, mas caminhar sempre para diante em todas as ocasiões. Confiar em Deus, principalmente depois das nossas quedas, pedindo que nunca nos falte a boa vontade de o amar e servir o mais perfeitamente possível. Era assim que se comportava são Filipe Néri que gritava pelas ruas de Roma: “Estou desesperado, estou desesperado!” E a quem lhe pedia explicações para tal comportamento, respondia: “Estou desesperado comigo próprio, mas confio plenamente em Deus!”

Desconfiar de nós próprios por falta de coragem é um obstáculo que nos impede de continuar no bom caminho. uma pessoa sem confiança é como uma ave com as asas cheias de pez, que, por isso, não é capaz de levantar voo.

Peçamos a nosso senhor que nos faça ver quão pouco ou nada valemos. não quero dizer que devamos considerar-nos piores do que já somos. se somos soberbos é por que não nos conhecemos bem. os medíocres e os imperfeitos é que pensam que são importantes. quando sabemos que não somos nada, e por isso desconfiamos de nós próprios, então podemos usar esta pobreza para nos guindarmos ao patamar da confiança em Deus. nunca devemos desanimar por causa das fraquezas que não desejamos; devemos antes agarrar-nos a Deus, abandonar-nos a ele, pois, além de querer, ele tem o poder de nos fazer santos, porque é omnipotente. Por isso pode mesmo construir a nossa santidade sobre as nossas fraquezas – isto, repito, se tivermos o desejo sincero, a vontade firme, de corresponder às suas graças.

13. Formação do carácter. Para crescermos no caminho da santidade é preciso um esforço contínuo e generoso; é preciso ter a boa vontade de formarmos o nosso carácter, de o moldarmos segundo a prática da virtude. é preciso tempo para chegar à virtude. Com o tempo, repetem-se as acções e assim se conquistam os bons hábitos que, afinal, são as virtudes. é com a prática destas virtudes que se chega à santidade.

Numa comunidade pode acontecer que todos os outros nos considerem invejosos, amuados, coléricos, e que só nós próprios não saibamos que somos assim, ou não queiramos aceitar essa realidade. nenhum de vós deve justificar o seu pouco progresso no caminho da perfeição com o pretexto de que a culpa é do carácter. que tais indivíduos acusem a própria preguiça, porque nenhum carácter, por si mesmo, pode impedir de nos dirigirmos para a santidade e de a atingirmos. Houve santos de todos os caracteres e de todos os temperamentos. Há gente que se desculpa dos próprios defeitos dizendo: “é por causa do meu carácter!”. Desculpa de mau pagador! não quero dizer que devamos destruir o nosso carácter, mas é preciso corrigi-lo. E isto leva tempo e custa canseiras, mas é importante, se quisermos mu dar para melhor a nossa maneira de ser, e também para não sermos sempre um peso para os outros. não tenhamos medo de nos examinarmos com toda a energia para descobrirmos as nossas fraquezas. se já conseguimos vencer definitivamente um defeito, vencem-se muitos outros ao mesmo tempo, porque um defeito é sempre a raiz de outros defeitos.

Mesmo que actualmente nos achemos ainda imperfeitos, se Deus vir que temos boa vontade, então ele irá colmatar os nossos vazios de virtude e infundirá em nós a abundância dos seus dons. E se nós combatermos os nossos defeitos com coragem e decisão, então também nossa senhora os cobrirá com a larga roda do seu manto.

Obstáculos no caminho da santidade

14. Motivações não autênticas[5]. Vários são os obstáculos que nos podem impedir de avançar no compromisso de nos tornarmos santos. Antes de mais, refira-se a falta de recta intenção, isto é, a existência de motivações que não são autênticas. Deus não pode abençoar quem entra no Instituto com um fim que não é correcto. Portanto, quem se comportasse desta maneira não poderia progredir no caminho da santidade, da mesma forma que não pode germinar a semente lançada num terreno mau. o mesmo acontece quando o fim não é mau em si, mas não corresponde ao fim específico do Instituto. Deus coloca nesta casa as suas graças de santificação para aqueles que são chamados a ser missionários e missionárias da Consolata.

15. Dissipação. outro obstáculo é a dissipação ou a dispersão, consequência duma vida de espírito mundano que é diferente da santidade como a luz o é das trevas, ou o fogo do frio. Deus exige de nós uma separação clara e nítida: “Vós não sois do mundo, eu é que vos escolhi do meio do mundo” (Jo 15, 9). é esta a mesma separação que ele estabeleceu entre si e o mundo: “Eu não sou deste mundo” (Jo 8, 23).

Não podemos servir a dois senhores: a Jesus e ao mundo. Enquanto tivermos desejos mundanos nunca poderemos desejar eficazmente a santidade. Estamos aqui para nos tornarmos santos – missionários santos e missionárias santas. Devemos empenhar-nos em atingir este fim e não podemos acalentar nenhuma outra finalidade. o nosso ideal é seguir Jesus. segui-lo de perto, com amor e com fidelidade: isto é que nos há de levar à santificação, e por isso é esta a nossa única ocupação. A dissipação é como o vento que tudo leva consigo. Às vezes está-se presente aqui com o corpo, mas a mente anda lá por fora. Passam-se dias inteiros com a mente a vadiar e o coração vazio de Deus, o espírito cheio de frio no que respeita a tudo aquilo que faz parte da piedade, com a vontade amolecida no que se refere ao serviço que devemos prestar a Deus e ao cumprimento do nosso dever. quem vive assim, como poderá rezar bem e viver em intimidade com Jesus? Como pode tal pessoa atingir a santidade? A dissipação anda quase sempre acompanhada pela frivolidade, pela tendência a considerar tudo ridículo, pelo respeito humano que torna impossível, ou ao menos inútil, a mentalidade espiritual – e fazemo-lo para não sermos considerados indivíduos estranhos. E então limitamo-nos a esvoaçar por cima de tudo o que aqui dentro deve conduzir-nos à santificação.

16. Tibieza. Também a tibieza é um obstáculo à santidade. Tíbia é a pessoa que baloiça entre a virtude e o vício. é a pessoa que gostaria de fugir do pecado e ser fiel em tudo, mas que nunca se decide a combatê-lo com denodo e coragem, porque tem medo da fadiga da virtude. os sintomas principais da tibieza passam por cair habitual e deliberadamente em pecados veniais, sem nos preocuparmos com isso; por omitir facilmente as orações ou rezá-las de forma estropiada; quer dizer, rezando só porque se tem de rezar, sem dar vida às mesmas orações por meio da atenção da mente e do afecto do coração; por perder a estima e o amor ao próprio estado de vida, como se se estivesse arrependido da escolha feita, procurando, por isso mesmo, distrair-se com interesses mundanos. o estado do tíbio é sumamente perigoso; os danos causados pela tibieza são descritos no livro do Apocalipse quando o Anjo disse da Igreja de Laodiceia: “Conheço a tua conduta: não és frio nem quente. quem dera que fosses frio ou quente! Porque és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te da minha boca”. (Ap 3, 15-16).

17. Falta de vontade. no caminho da perfeição, a falta de vontade, ou relaxamento, é um obstáculo muito semelhante à tibieza. A nossa natureza humana, frágil como é, facilmente abandona o fervor primitivo, deixando-se arrastar para baixo. os sintomas do relaxamento são estes: ser negligente na observância das regras e da vida comum; ter sempre desculpas para os erros cometidos ou quando se recebe uma admoestação; relaxar-se no fervor ou criticar o fervor dos outros porque é visto como uma reprovação do nosso relaxamento; desperdiçar as inspirações e a graça de Deus; agir superficialmente ou por fins puramente humanos; enfraquecimento no combate contra a paixão dominante e no esforço por atingir a santidade.

18. Crítica destrutiva[6]. Também a crítica destrutiva e a murmuração contra os superiores e o próximo são contra o espírito de santidade. são um vício condenável que não vou permitir nesta casa: não quero que entre para o Instituto gente desta. Há sempre quem pense de maneira contrária ao que pensam os superiores; há os que continuamente criticam, julgam, protestam. é tudo uma questão de soberba, de muita soberba. quando se tem uma atitude assim, é impossível fazer milagres nas missões. não digo que deveis desinteressar-vos da vida da comunidade. Do bem e do mal do Instituto devem todos interessar-se in distintamente. Portanto, quando se vê uma desordem qualquer, deve-se comunicá-la ao responsável, pois tal atitude é um acto de caridade. o que é mau, isso sim, é murmurar às escondidas! Ai das comunidades onde entra este espírito: já chegaram ao princípio do fim. é uma coisa que repito continuamente. Rezemos a Jesus que nos faça humildes de coração e de espírito. Rezemos a nossa senhora da Consolata para que defenda o nosso Instituto deste cancro que é o espírito de crítica – para que tudo corra bem. Então sim, o senhor há de abençoar-nos e tudo correrá bem no Instituto.

19. Desunião. outro obstáculo é o espírito de partido ou a desunião. muitas vezes, este espírito é filho da inveja, do ciúme. não digo que seja uma falta “sentir” inveja, mas de vemos reagir para não deixarmos que ela entre em nós e provoque “maus fígados”. somos todos iguais. que não haja distinções entre gente vinda duma terra ou de outra, nem simpatias ou antipatias, mas haja um só coração e uma só alma, todos bem unidos. Afinal, sois todos irmãos ou irmãs, e tendes de viver juntos toda a vida. Por isso, também por causa da caridade fraterna, não deveis exigir que os outros não tenham defeitos. Devemos corrigir os nossos e aguentar os dos outros

20. Obstinação. outro obstáculo é o da obstinação nas próprias ideias, aquele querer ter sempre razão, dominar os outros e não aceitar os próprios erros. quem não combate este espírito nunca fará progressos no caminho da perfeição. E quem pensa que já é perfeito, anda iludido e é um infeliz.

21. Pecados veniais. o maior obstáculo no caminho da perfeição está no pecado venial. Alguns pecados veniais são causados pela fragilidade humana, como, por exemplo, um acto de impaciência repentino e coisas semelhantes. Fazem parte das nossas limitações, das nossas fraquezas. se neles não houvesse nada de vontade própria, nem sequer seriam pecados. sem uma ajuda especial de Deus, nunca iremos libertar-nos deles completamente. mas podemos sempre diminuir a sua frequência e a respectiva voluntariedade, dando mais atenção a nós próprios e pondo mais fervor no nosso serviço ao senhor. Estas fraquezas não impedem de nos tornarmos santos, e podem até ser meios que nos permitam avançar no caminho da santificação, se soubermos tirar proveito deles, radicando-nos profundamente na humildade e na união com Deus com maior amor e confiança.

Já os verdadeiros pecados veniais são voluntários. Por exemplo: sei que é mau alimentar o rancor ao próximo, mas não faço nenhum esforço para vencer esta tendência; sei que afirmando ou negando isto ou aquilo digo mentiras, mas faço-o à mesma, etc. quando estes pecados já se tornaram habituais, ou seja, quando são feitos com bastante frequência e, pior ainda, com o nosso consentimento tácito, então eles constituem o mais grave estado de tibieza e um sinal inequívoco de que já renunciámos a todo o propósito eficaz de chegar à perfeição. o melhor conselho a dar, neste caso, é sacudirmo-nos violentamente, prestar atenção às nossas paixões e controlá-las; o mesmo se diga das nossas palavras e acções, empenhando-nos com coragem no caminho da virtude. Digamos então continuamente a nós próprios: sim, quero salvar-me, quero santificar-me, porque tenho à minha disposição meios superabundantes, e porque foi este o compromisso que assumi ao fazer-me religioso e missionário.

22. Tentações. Todos estes obstáculos à santidade podem ser produto das tentações do demónio. Tentações são actos por meio dos quais o demónio procura fazer-nos cair em pecado para nos impedir de conseguirmos a bem-aventurança eterna. Para estimular a nossa vigilância, poderíamos recordar o que nos dizem são Pedro e são Paulo: “Vesti a armadura de Deus para poderdes resistir às manobras do diabo” (Ef 6, 11). E “sede sóbrios e vigiai! Pois o diabo, vosso inimigo, anda ao redor de vós como um leão que ruge, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8). nos seus imperscrutáveis desígnios, Deus nosso senhor pode permitir que os demónios nos tentem, mas nunca além das nossas forças. “não fostes tentados além do que podíeis suportar, porque Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças. mas, juntamente com a tentação ele também vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar” (1 Cor 10, 13). Para vencer as tentações de vemos ser vigilantes, mas não só. Devemos também evitar as situações perigosas e invocar com prontidão, humildade e confiança, a ajuda de Deus – e recomendar-nos à intercessão da santíssima Virgem, do nosso Anjo da Guarda e dos santos. A Igreja sugere-nos a seguinte oração: “Visitai, senhor, esta morada e afastai dela todas as ciladas do inimigo. que nela habitem os vossos santos Anjos e que eles nos guardem em paz. E a vossa bênção esteja sempre connosco”.

 

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[1] O Pe. J. Allamano referia-se ao texto dos Constituições dos missionários da Consolata de 1909, art. 1: “O instituto tem por finalidade: primeiro a santificação dos seus membros por meio da observância dos votos religiosos e das suas Constituições; (...)”; e também às Constituições das missionárias da Consolata de 1913, art 1: “o Instituto tem por finalidade: primeiro, a santificação das missionárias por meio da observância dos votos religiosos e das Constituições; (...).

[2] Para não atraiçoar o pensamento de José Allamano, temos de esclarecer duas coisas. Primeiro, quando ele usava, como era costume na altura, a palavra “almas”, queria certamente dizer “pessoas”, termo que se adequa mais à maneira de falar actual, e que por vezes usamos nestas páginas. segundo, quando ele falava de “converter com a santidade”, expressão que também aqui usamos, ele referia-se ao afã de evangelizar – antes de mais nada, mediante o testemunho da santidade pessoal.

[3] O Pe. José Allamano pronunciou estas palavras no dia 28 de outubro de 1906, quando tinha 55 anos, e viveu ainda mais 20: uma longa caminhada sempre em penhado em fazer o bem.

[4] S. José Cafasso (1811-1860) era irmão de mariana Cafasso, mãe de José Alla mano. Foi J. Allamano quem promoveu a causa de beatificação de seu tio, de quem coordenou duas biografias: uma escrita pelo Cónego Tiago Colombero e publicada em 1895; e outra escrita pelo abade Nicolis de Robilant, publicada depois da morte de J. Cafasso, em 1912; dele publicou também J. Allamano as “meditações e Instruções” que ele pregara durante várias séries de exercícios espirituais (1892-1893).

Em 1836, S. José Cafasso foi convidado pelo teólogo Luigi Guala a ajudá-lo na direcção do Centro de Formação do Clero, do qual é considerado co-fundador, para a formação dos jovens sacerdotes da diocese de Turim. Foi depois director desse mesmo Centro e professor de teologia moral, ensino a que deu uma orientação afonsina, e que exerceu desde 1848 até à morte. Foi educador de numerosos sacerdotes, um dos quais foi s. João Bosco. Em todas as suas obras apostólicas foi dotado de grande zelo, e distinguiu-se também como confessor e pregador de exercícios espirituais tanto ao clero como ao povo. Foi consolador dos presos e dos condenados à morte, conselheiro de inúmeras pessoas de todas as classes, e grande inspirador e apoiante de instituições religiosas. Foi um exemplo luminoso de esperança cristã e um pregador incansável da misericórdia divina. Foi beatificado por Pio XI no dia 3 de maio de 1925 e canonizado por Pio XII no dia 22 de junho de 1947.

[5] Para José Allamano, o primeiro obstáculo à santidade é a falta de “recta intenção” que aqui e noutros lugares desta obra será designada pela sua expressão dinâmica, ou seja, de “motivações não autênticas”, porque era esta a sua visão pedagógica.

[6] A palavra “crítica”, que antigamente se usava em sentido negativo nos manuais de ascética, e que equivalia a “denigração”, está aqui qualificada pelo adjectivo “destrutiva”, para evitar equívocos.