A base da nossa fé: a santíssima Trindade

58. o mistério da santíssima Trindade é a base de toda a nossa fé. é um mistério incompreensível. E, além de acreditarmos nele, devemos também adorá-lo... com a humildade de quem se reconhece muito pequeno perante tão infinita majestade. Devemos sentir-nos felizes com a sublime grandeza de Deus, dando-a a conhecer aos outros. o primeiro gesto de adoração é a liturgia eucarística, aliás o único digno da santíssima Trindade. Também veneramos o Pai, o Filho e o Espírito santo quando fazemos o sinal da cruz, quando rezamos o “Glória ao Pai”, quando recitamos o “Creio em Deus Pai” ou quando rematamos cada hino litúrgico com a estrofe de louvor e glória à santíssima Trindade. Devemos rezar o “Glória ao Pai” muitas vezes ao dia com afecto e entusiasmo, com a intenção de dar à Santíssima Trindade toda a glória de que é digna e fazendo as vezes dos que não rendem a Deus a honra que lhe é de- vida. o “Glória ao Pai” é um acto perfeito de amor a Deus; através dele louvamos a Deus e queremos que seja glorificado por toda a gente. Isso mesmo: glória a Deus por toda a eternidade!

O sinal da cruz é o sinal do cristão; é uma oração; é um louvor à santíssima Trindade; é uma profissão de fé. os primeiros cristãos persignavam-se muitas vezes, quase a cada acção que faziam durante o dia. Tertuliano declara: “Em qualquer acção, ao entrar ou ao sair de casa, sempre que nos vestimos, quando nos lavamos, quando acendemos o lume e quando conversamos, façamos sempre o sinal da cruz”. se fizéssemos o propósito de fazer sempre bem o sinal da cruz, já estaríamos, só com isso, a prestar um grande louvor à santíssima Trindade.

Também se venera a santíssima Trindade reportando todas as nossas acções à sua glória. Tudo pertence a Deus; tudo vem de Deus; e tudo subsiste em Deus. Tudo o que existe pertence a Deus porque foi Ele quem tudo criou. Tudo o que possuímos foi de Deus que o recebemos. Por tanto tudo deve voltar a Deus, para sua honra e glória, como bem dizia santo Inácio de Loyola: “Ad majorem Dei gloriam” – seja para maior glória de Deus. Tal como o sangue arterial, vindo do coração, leva a vida à periferia do corpo e depois regressa ao coração como sangue venoso para que possa ser purificado, também as nossas acções só terão valor e vida se partirem de Deus, da sua santíssima vontade, e forem encaminhadas para a sua absoluta e maior glória com pureza de intenção. Isso mesmo: que tudo seja para honra e glória da santíssima Trindade.

Poderia dizer-se que a Igreja celebra a Santíssima Trindade durante todo o ano. Festejamo-la aos domingos, todos os dias, a cada hora do dia. Honra-se sempre o Pai, o Filho e o Espírito santo.

Todos os cristãos, mas muito especialmente os que são missionários e missionárias, devem honrar a santíssima Trindade. E como é que se deve anunciá-la de forma credível aos que não são cristãos? sobretudo através da nossa fé, prestando-lhe toda a honra e toda a glória. Dessa for ma vós recebereis uma graça toda especial para apresentar este mistério a quem não crê. é incrível que muitos cristãos não aceitem nem acreditem num Deus uno e Trino! “Ao Rei dos séculos, incorruptível, invisível e único Deus, seja dada toda a honra e toda a glória pelos séculos dos séculos. Ámen” (1Tm 1,17).

O Ano Litúrgico

59. “Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito” (Jo 3, 16). o Filho incarnou por nosso amor: “Por nós homens e para nossa salvação”, confessamos nós no “Credo”. Deus, que nos amou desde toda a eternidade, deu-nos o que tinha de mais querido e mais precioso – o seu próprio Filho unigénito. A palavra “unigénito” indica precisamente o grau de amor que teve para connosco. E o Filho veio porque nos ama. que fazer? o amor quer amor. Trata-se de um mistério de amor.

Na qualidade de filhos e membros da Igreja, temos não apenas o dever de saber o que ela pensa nas várias festas de cada ano mas também o dever de participar nelas. será o caso do Advento, em que vivemos pensando na vinda do messias, ou então o caso do Domingo, em que, ouvindo as leituras e rezando a liturgia das Horas, partilhamos os sentimentos que a Igreja propõe concretamente aos fiéis nesse dia. Da mesma forma devemos ter devoção aos santos, etc. Vivamos então no espírito da Igreja, que é o espírito de nosso senhor. Cada dia traz-nos um alimento espiritual específico.

O Advento

60. o ano litúrgico começa com o Advento. é um tempo de espera. Poderíamos dizer que é uma longa preparação para o Santo Natal. A Igreja estabeleceu quatro semanas de preparação para a comemoração do nascimento do Filho de Deus. o tempo do Advento lembra-nos as três vindas de nosso senhor Jesus Cristo: a sua vinda ao mundo pela incarnação; a sua vinda escatológica para o juízo universal; e a sua vinda espiritual a cada pessoa. é muito importante prepararmo-nos bem para a vinda de Jesus dentro de nós! mergulhemos neste espírito apropriando-nos das invocações dos profetas que a Igreja nos sugere na sagrada liturgia e repitamo-las muitas vezes durante o dia: “quem dera rasgasses os céus e descesses” (Is 63,19).

Na Liturgia Deste Tempo Espiritual Encontramos Muitos outros desejos: “manifestai, senhor, o vosso poder e vinde: de fendei-nos dos perigos a que nos expõem os nossos pecados e salvai-nos”. mas será que a nossa alma está preparada para receber o senhor? E ainda: “sacudi, senhor, os nossos corações e preparai neles o caminho para o vosso Filho unigénito, de forma que, pela graça da sua vinda, possamos servir-vos de alma pura”; “senhor, escutai com bons ouvidos a nossa oração. Com a graça da vossa vinda, alumiai as trevas do nosso espírito para que compreendamos bem o mistério que se realiza”. Procuremos viver neste espírito que a Igreja sente.

O Advento é um tempo de renovação: é para aplanar os montes e encher os vales, evitando o pecado e praticando a virtude. Preparemo-nos; estimulemos a nossa alma para o amor, a fim de que o senhor a encha de graças. Jesus não virá se não for desejado. Jesus virá a nós com graças tanto maiores quanto melhor for a nossa preparação e maiores forem os nossos desejos. Como Deus é bom! Ele ouve a nossa súplica e vem até nós.

A Igreja estabeleceu uma novena anterior ao Natal, uma novena toda especial que a todos inspira e a todos é dirigida, estimulando-nos a fazer invocações do tipo: “o senhor já está à porta, vinde adorá-lo”. Durante esta novena exercitai-vos na fé: “o justo vive da fé” (Rm 1,17). E sobretudo inclinai as vossas cabeças perante este mistério. não pensemos que estamos a humilhar-nos ao reconhecermos o Deus-menino. Avivai o desejo de que venha nascer espiritualmente em vós e também na comunidade. Desde crianças que aprendemos a gostar deste mistério: basta recordar com que inspiração fazíamos a novena de Natal. Pois então lembremo-nos das impressões que nessa altura tivemos. quanto a mim, essa recordação traz-me grande suavidade à alma.

O Natal

61. nosso senhor houve por bem rebaixar-se a ser criança. O presépio fala-nos da humildade e da simplicidade de Deus. Se Ele se fez pequeno, por que razão não haveremos nós de nos fazermos pequenos também? São Bernardo diz que Jesus se fez assim tão pequeno para poder ser mais ama do. Santo Agostinho diz que o Redentor quis nascer criança para ser amado. São Francisco de Assis exclamava: “Amemos o menino de Belém! Amemos o menino de Belém!”. E dizia-o a todas as pessoas que encontrava. quem seria capaz de não amar este menino? não devemos participar nesta festa apenas com a razão, devemos também fazê-lo com o coração. quem não sentir este amor deve pedi-lo a Jesus, por intermédio da Virgem maria – que ardia de amor enquanto esperava a chegada do seu Jesus.

Como é enorme a importância do mistério de Belém! é muito bom meditar na Paixão, claro, mas também o é meditar no Natal do senhor. Esta criança deu-nos uma importante lição ao vencer as três formas da concupiscência humana – os prazeres, as riquezas e as honras – para nos ensinar a vencê-las. Deu-nos o exemplo sob a forma dos sofrimentos por que passou, com espírito de pobreza e humildade. Ao nascer de maneira tão pobre, Ele queria que todos nos separássemos das delícias deste mundo. Canonizou, de facto, a pobreza.

O Natal não é uma festa apenas para crianças; também o é para nós, que devemos tornar-nos pequenos para podermos entrar no Reino dos céus. Exercitemo-nos nas virtudes que são próprias deste santo menino – na simplicidade e na humildade.

Como é importante a virtude da simplicidade para um missionário ou para uma missionária, até mesmo para poderem viver felizes nesta terra! E que dizer da humildade? nosso senhor fez-se pequeníssimo; e ainda por cima rebaixou-se, aniquilando-se até à morte, e morte de cruz. quando entrardes na igreja, com o olhar fixo em Jesus no sacrário, e também ao verdes Jesus no presépio, dizei-lhe: “Eu quero possuir todas as virtudes que tu tens!”.

Devemos também amar o santo menino por amor de si mesmo. Ele desceu do céu e encarnou precisamente por cada um de nós e para nossa salvação. meditemos a fundo neste “excesso” de amor de Jesus; assim haveremos de o amar. Peçamos a Deus este amor com muita insistência, repetindo com santo Agostinho: “senhor, que eu Vos ame!”.

O santo Nome de Jesus

62. O Pai deu a seu Filho o nome de Jesus, que significa salvador, precisamente porque devia salvar o mundo. O nome é como que o projecto de vida de quem o usa. São Paulo declara que o Pai deu ao Filho um nome que fica acima de qualquer outro nome, para que ao seu nome todo o joelho se dobre nos céus, na terra e debaixo da terra. E acrescenta que toda a língua deve proclamar que Jesus é senhor para glória de Deus Pai (cf. Fl 2,9-11). Nos Actos dos Apóstolos podemos ler: “não existe salvação em nenhum outro, pois debaixo do céu não existe outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos” (Act 4,12). Como é suave este nome! é como o mel na boca, a luz na razão e o amor no coração. são Paulo, nas suas várias cartas, escreveu-o muitíssimas vezes.

Jesus disse: “Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá” (Jo 15,16). é por essa razão que a Igreja termina as suas orações com a expressão: “Por Cris to nosso senhor”. se este nome deve ser querido de todos os cristãos, quanto mais o deverá ser de vós que, enquanto missionários e missionárias, estais destinados a anunciá-lo aos povos e, com o exemplo de São Paulo, sofrer até por este nome: “Eu lhe mostrarei quanto deverá sofrer pelo meu nome” (Act 9,16). Exactamente! suportar seja o que for para que o nome de Jesus seja conhecido e amado. Rezemos para que este nome, tal como o de maria, seja o último a pronunciarmos na hora da morte. Portanto, tende muita devoção a este nome. Que ele seja a nossa consolação!

Fim de Ano

63. Estamos no fim de mais um ano e, tal como em qualquer organização, temos que fazer o balanço e um novo orçamento. Hoje vamos fazer o primeiro; amanhã faremos o segundo. no balanço aparece o activo e o passivo.

No activo coloquemos as graças recebidas, tanto as de ordem natural como as de ordem sobrenatural. As de ordem natural seriam: a manutenção da vida, que é afinal uma criação continuada; e a saúde física. mesmo que Deus nos tenha testado com algum sofrimento, também isso, na mente de Deus, não foi um mal; foi uma graça. Tudo isso é graça recebida. na ordem sobrenatural: a vocação e a perseverança na vocação. Trata-se de algo muito sublime que nunca poderemos compreender adequadamente! Alguns fizeram a profissão religiosa; outros receberam as sagradas ordens; mas todos ouviram sermões, leituras, fizeram meditações, etc. E não esqueçais os sacramentos recebidos: as sagradas comunhões e, para os que somos padres, muitas missas! E também orações, boas inspirações... quantas graças foram recebidas! Por todas elas devemos louvar a Deus.

No activo, também podemos incluir... a boa vontade em corresponder à vocação, o progresso porventura feito na correcção deste ou daquele defeito, mortificações internas e externas. Demos graças a Deus se fizemos algo de bom, porque sem ele nada podemos alcançar – nem pouco nem muito!

O passivo nada tem que diga respeito a Deus – até poderia ser o Instituto, ou mesmo cada um de nós – e de quem ele poderia dizer: que mais deveria eu ter feito à minha vinha que ainda não fiz? (cf. Is 5,4). quanto de nós não terá o passivo! mas que nem sequer aqui alguém possa dizer: “Eu era melhor antes!”. não creio que alguém possa dizer uma coisa dessas, mas todos certamente estaremos em “défice”. no entanto não percamos a coragem caso tenhamos feito pouco; pelo contrário, rezemos a Nossa Senhora para que nos ajude a fazer mais. Ela suprirá as nossas deficiências se vir que temos boa vontade. E a nosso senhor também, ele que é um Pai bondoso, disposto a tudo perdoar, contanto que voltemos a agir bem. A perfeição conquista-se mediante uma vontade forte, essa vontade que deveis renovar todas as manhãs na santa comunhão e outras vezes durante o dia – mas que sobretudo deveis renovar em cada retiro mensal e nas várias festas.

Ano Novo

64. Ontem cantámos o Te Deum por todas as graças que recebemos; hoje cantámos o Veni Creator pelo Ano novo. Comecemos o ano com energia e da mesma forma todos os dias do ano, todos os momentos, sem jamais desanimarmos. Fazei-o aqui e agora, para que depois o façais também nas missões. Tal é o espírito com que devemos começar o Ano novo. não voltemos a pensar no passado; é o presente que temos entre mãos. quero ver-vos todos cheios de boa vontade. Esperamos poder dar graças a Deus no final deste ano, tal como fizemos ontem à noite pelo ano passado. A vida e a morte são um mistério. o tempo passa e não volta mais. se não tivermos o cuidado de corresponder à graça de cada momento que compõe o ano, já não poderemos voltar atrás para a agarrar; tal como acontece com o tempo, aquela graça perdeu-se para sempre.

Neste novo ano, é mesmo preciso que nos comportemos como se fosse o último da nossa vida. se estivéssemos bem convencidos disso, logo arranjaríamos boa vontade! Vou dizer-vos o que costumo fazer sempre que vou à Catedral: medito sobre a morte. E imagino que, quando morrer, me enterrarão na Catedral; vejo os Cónegos a passarem pela Rua de Santa Clara, pela Basílica, até à Catedral. Achais que me faz mal pensar assim? Pois faz-me muito bem! um destes dias passarei por estas mesmas ruas, não já com os meus pés, mas levado por outros e... Ai como eu gostaria de fazer bem este breve trajecto! Por isso, penso também no bem e no mal que se poderá dizer de mim. se conheceram defeitos em mim, dirão: “ora, aquele padre era uma peste, etc.”. Entretanto chegarei à Catedral. Há lá uma estátua de nossa senhora que é das que mais gosto, logo a seguir ao ícone da nossa Consolata. Faço-lhe uma vénia e imagino que me colocarão diante dela – e ela há-de sorrir-me. Depois levar-me-ão para diante do altar do santíssimo. Espero bem que nosso senhor, ao ver-me ali, ficará contente e olhará para mim com atenção, dizendo-me: “muito bem! sempre aqui vieste rezar com fé; pois agora cuidarei da tua alma”. Confesso que isto me faz bem; são coisas que irão acontecer.

Dai uma olhadela pelo ano que se abre diante de vós e fazei uma espécie de análise orçamental. Tal como fazemos cada manhã para cada dia da semana, façamos o mesmo agora para o ano todo. lembrai-vos da oração de santa Isabel, rainha de França: “que me acontecerá este ano? não sei; mas sei que nada me acontecerá que não tenha sido previsto, regulado e ordenado desde toda a eternidade”. Digamos a mesma coisa e façamos um voto de conformidade com a vontade de Deus: aceito tudo, quero tudo isso, sem restrições. um acto destes tem muito valor por nos conformar com a vontade de Deus não apenas em termos gerais mas também nas mais ínfimas circunstâncias. que eu não faça nada – nem uma linha, nem uma palavra, nem uma obra – que não seja para Vós, ó meu Deus!

E aqui está a importância de agora nos treinarmos, para não errarmos no alvo!  Procuremos passar este novo ano da melhor maneira possível. se houver fraquezas, procuremos corrigi-las imediatamente. que não haja sequer um dia inútil. que o novo ano seja um ano de muitas bênçãos para os nossos Institutos, para as missões, para os missionários e para as missionárias!

Epifania

65. “E chegou a luz verdadeira, aquela que a todo o homem ilumina” (Jo 1, 9). “Epifania” é uma palavra grega que significa “manifestação” ou “aparição”. o menino Jesus, depois de se ter manifestado aos Judeus na pessoa dos pastores por intermédio dos anjos, deu-se a conhecer aos pagãos na pessoa dos magos, por meio de uma estrela. Demos graças a Deus por nos ter chamado, através da manifestação aos Reis magos, a beneficiar dos frutos da redenção, pelo dom da fé. Também devemos agradecer-lhe em nome dos não-cristãos, porque também eles são chamados à fé, a conhecer e a amar Jesus. De modo muito especial, devemos agradecer-lhe pela vocação missionária, pois será por meio dela que Jesus continuará a manifestar-se aos pagãos e a tornar-nos participantes da sua missão universal. Por fim, devemos agradecer-lhe pelas graças que concedeu aos nossos Institutos e pelo bem que se faz nas missões.

Imitemos os magos na pronta, generosa e constante correspondência à vocação. que maravilhosas meditações se poderiam fazer a seu respeito! que podemos aprender deles? Eu penso que a ideia dominante, uma ideia que poderemos manter o ano todo, é a da fidelidade ao chamamento que lhes foi feito. A estrela que apareceu no oriente decerto que foi vista por muitas outras pessoas, no entanto, só os magos, iluminados no seu íntimo pela graça, é que reconheceram nela o sinal do nascimento do messias, e se mexeram... partiram… e foram até Belém. “Vimos... e viemos” (cf. Mt 2, 2). Da mesma forma, muitos e muitas de vós ouviram a voz de Deus a chamar-vos para o apostolado mas, passado o entusiasmo inicial, tudo se evaporou. não basta dar com prontidão o primeiro passo; é preciso corresponder a esta primeira graça. Santo Agostinho exorta-nos a que estejamos atentos ao “tempo da estrela”, não aconteça que percamos o senhor ao passar com as suas graças.

Os magos não só demonstraram pronta fidelidade, como também foram generosos e constantes. Foram directos à meta, apesar da distância e da aspereza do caminho, e apesar do desaparecimento momentâneo da estrela. Superaram generosamente tais dificuldades porque tinham os olhos fixos em Deus e nas suas promessas. Façamos uma aplicação ao nosso caso pessoal. será que também é assim a nossa correspondência à graça? suportais com coragem as provações que encontrais? Exercitais-vos com alma generosa nas canseiras da missão? sois fortes na fé? o Senhor mandar-vos-á não só uma, mas várias estrelas, quais graças que vos hão-de sustentar e tornar santos missionários e santas missionárias. Portanto, haja fidelidade generosa e constante na correspondência à graça da vocação.

Os magos, tendo encontrado o menino Jesus, ofereceram-lhe ouro, incenso e mirra, símbolos da caridade, da oração e da mortificação. Da mesma forma vós, hoje – digo mesmo, neste preciso momento – deveis procurar crescer no amor de Deus e do próximo; rezai para que Jesus infunda em vós o espírito apostólico; e revesti-vos do espírito de mortificação, que deverá acompanhar-vos por toda a vida. A Epifania é a nossa festa. Devemos ser missionários e missionárias na cabeça, na boca e no coração, isto é, nos pensamentos, nas palavras e nas obras. A nossa estrela é um convite a que nos tornemos santos, enquanto missionárias e missionários da Consolata. Basta segui-la.

Apresentação de Jesus no Templo

66. Passados apenas quarenta dias do nascimento de Jesus, Ele foi oferecido a seu Pai no templo. Este oferecimento corresponde ao que Ele, mais tarde, irá fazer de si próprio no Calvário em expiação pelos pecados de toda a humanidade. Já um profeta trouxera nos lábios estas palavras: “não queres sacrifícios nem ofertas, mas abriste os meus ouvidos. Tu não pedes holocaustos pelo pecado. Então eu digo «Aqui estou» – como está escrito no livro – para fazer a tua vontade” (Sl 40,7.8). Esse sacrifício foi a finalidade da apresentação de Jesus no templo; e maria uniu-se a Ele. Simeão chamou a Jesus “uma luz para iluminar os gentios” (Lc 2, 32) e profetizou à mãe: “Também a ti uma espada te trespassará o coração” (Lc 2, 35). Ela aceitou com generosidade e ofereceu-se para o cumprimento do desígnio de Deus.

Quaresma

67. “Exortamo-vos a não receberdes a graça de Deus em vão: eu te socorri no momento oportuno e vim em teu auxílio no dia da salvação” (2Cor 6,1-2). Paulo designava essa hora como “tempo aceitável”, “de salvação”, ou seja, digno de aceitação com reconhecimento e amor, a hora do evangelho. A Igreja aplica estas palavras de Paulo à Quaresma e repete-nos esse recado frequentemente. De facto, o tempo da Quaresma é mesmo aceitável. é nele que Deus aceita de boa mente o que fazemos; ouve as nossas súplicas muito melhor que noutras ocasiões. Portanto, é preciso que nos mexamos, não a deixando passar em vão. Todos devemos ter grande estima pela Quaresma. não digamos: “mas eu não posso fazer jejum nem posso rezar mais”. não é a quantidade que conta; é a intensidade. Temos que andar mais unidos a Deus, nunca passando horas inteiras sem pensar em Jesus. é apenas isso! Podemos aplicar a vós aquelas mesmas palavras, ao tempo que ides passando a preparar-vos para fazer missão. neste tempo de Quaresma é preciso corresponder à chamada de Deus; é o tempo oportuno – devemos animar-nos; não sejamos daqueles que caminham na mediocridade...

A Quaresma é um tempo especial de penitência e de oração. Ainda não teremos chegado ao patamar dos santos que só andavam a pão e água. mesmo assim, é necessário ter espírito de penitência, habituarmo-nos às exigências da vida. Deus quer sacrifícios diminutos, pequenos, perseverantes. Há muitas maneiras de fazer penitência e de jejuar. quem não jejua duma forma tem que jejuar doutra. Para além do jejum no alimento há o dos olhos, da imaginação e do espírito.

68. A Igreja, sobretudo neste tempo quaresmal, usa muito o salmo 50, o “miserere”, mandando-o rezar na liturgia das Horas – o que é muito oportuno, visto ser um salmo penitencial, composto por David após ter pecado. Ensina-nos o temor de Deus, a esperança, e ensina-nos a tomar boas resoluções. é bom examiná-lo e aplicá-lo a nós próprios.

O “miserere” pode-se dividir em duas partes. Antes demais, para conseguir a misericórdia divina, David apresenta a Deus cinco motivos. o primeiro deles é a grande misericórdia de Deus e a sua infinita compaixão pelas nossas misérias: “Tende piedade de mim, ó Deus, segundo a vossa misericórdia” (v.1). senhor, pela vossa misericórdia, apagai os meus pecados. não pela vossa justiça, mas segundo a vossa bondade: “lavai-me de todas as minhas culpas” (v.4).

O segundo motivo é o reconhecimento, por parte de David, de toda a sua baixeza, e também o repúdio do seu próprio pecado: “Reconheço a minha culpa; o meu pecado está sempre diante de mim” (v.5). Portanto, o pecado já não está em mim mas apenas diante de mim, para me ajudar a manter-me humilde. O terceiro motivo é a convicção de que, tendo ofendido a Deus, só de Deus pode receber o perdão: “Foi contra vós e apenas contra vós que pequei” (v.6). E o quarto motivo é o merecimento de compaixão porque todos somos fracos e inclinados a praticar o mal. não quero arranjar desculpas para o meu pecado; ando até angustiado por causa dele, mas eu tenho uma inclinação para o mal desde o meu nascimento: “Eis que fui concebido na culpa; minha mãe já me concebeu em pecado” (v.7). Finalmente, o quinto motivo consiste nas graças e bênçãos recebidas. Vós, ó senhor, fizestes muito por mim antes de eu ter caído no pecado. Agora purificai-me para que eu possa reaver a vossa amizade: “Vós amais a sinceridade de coração e, no meu íntimo, ensinais-me a sabedoria” (v.8).

Uma vez introduzidos estes motivos, David confia na justificação, na segunda parte do salmo: “Dai-me a alegria de ser salvo” (v.14). E promete ensinar aos outros os caminhos de Deus: “Hei-de ensinar os vossos caminhos aos que andam errantes; e os pecadores hão-de voltar para Vós” (v.15).

Eis como devemos meditar e aplicar a nós próprios este maravilhoso salmo. Cada um, para seu proveito espiritual, pode fazer as aplicações que Deus lhe inspirar. A quem quiser fazer verdadeira penitência bastará rezar o “miserere” devagar e bem. Aprendei a compreender estas coisas, porque irão ajudar-vos lá nas missões. um “miserere” bem rezado é uma grande consolação.

Paixão e Morte

69. Todos os santos tiveram enorme devoção à Paixão de Jesus Cristo. E se há quem deva pensar na sua paixão são exactamente os missionários e as missionárias. Para vós, por tanto, esta deve ser a devoção principal. O próprio Santíssimo Sacramento é um memorial e uma renovação da Paixão.

Meditemos na Paixão do senhor e, se não tivermos um coração de pedra, ele há-de sentir-se comovido. Jesus sofreu por cada um de nós como se fôssemos os únicos: “amou-me e deu a vida por mim” (Gl 2, 20). quem se compenetra de que Jesus foi trespassado pelos nossos delitos (cf. Is 53, 5) deverá arrepender-se e fazer reparação pelas próprias faltas, penitenciando-se. Juntemos as nossas dores e os nossos sofrimentos aos de Jesus, imitando são Paulo, que dizia: “Trago no meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6, 17); e ainda: “completo na minha carne aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo” (Cl 1, 24). Estimulemos a nossa sensibilidade em relação aos sofrimentos por que Jesus passou. Era o que fazia são Paulo: “mas quanto a mim, que não haja outro orgulho senão a cruz de nosso senhor Jesus Cristo pela qual o mundo foi, para mim, crucificado assim como eu o estou para o mundo” (Gl 6, 14). Tudo isto quer dizer que devemos fazer nossa a Paixão do senhor, ou seja, procurar fazer com que ela esteja sempre bem presente no nosso coração, na nossa mente, no nosso corpo e no nosso espírito.

Avancemos pois para uma meditação profunda dos sofrimentos de Jesus. Daí resultará, também para nós, o desejo de sofrer por Ele, de fazer sacrifícios, de desbaratar os sofrimentos do coração e do espírito e, na medida do possível, até os do corpo. Enquanto não estivermos bem compenetrados da Paixão de Cristo Jesus, não poderemos ser generosos no espírito de sacrifício. Procurai ganhar amor à paixão de Cristo e fortalecei-vos no espírito da Paixão. O que vos dará mais coragem na missão será precisamente a ideia da Paixão de Cristo. Que farão um missionário ou uma missionária se não tiverem amor a Jesus crucificado? meditar a Paixão de Jesus levar-vos-á a perceber o significado das palavras “Tenho sede” (Jo 19,28) e isso acenderá em vós o ardor missionário.

70. Sejamos então devotos do santo crucifixo. Procuremos tê-lo no nosso quarto e trazê-lo também connosco; dirijamos-lhe frequentes actos de fé e de amor. nem sempre podereis ter convosco o Santíssimo Sacramento; mas o crucifixo, sim. Que é o crucifixo para um missionário ou para uma missionária? É um “livro”, um “amigo” e uma “arma”. um livro que se deve ler e meditar; um amigo que consola e ajuda; uma arma poderosíssima contra o demónio. Não basta andar por aí de crucifixo; é preciso imitá-lo. Queiramos ou não, a nossa vida está repleta de sofrimento, e a isso ninguém escapa. O segredo está em suportá-lo com paciência; melhor ainda será amá-lo e até desejá-lo. Jesus não largou a cruz a meio do caminho; caiu, mas voltou a levantar-se e continuou a andar até à morte. Peçamos-lhe que nos dê a luz sobrenatural e o amor necessários para levarmos a nossa cruz sempre atrás dele, por amor dele – e não arrastando-a de má vontade.

A nossa cruz não iguala a dele no peso; e se for levada em união com ele, tornar-se-á leve. é coisa fácil dizer que gostamos do crucifixo; mas quando se trata de levar a nossa cruz por um pedacinho, logo ficamos para trás. E no entanto o senhor falou claramente. “quem quiser estar comigo pegue na sua cruz e siga-me” (Mt 16, 24). são Pau lo exclamava: “Fui crucificado com Cristo!” (Gl 2,19). é isto que quer dizer amar a cruz!

É por meio da cruz que nos santificamos, não por meio das palavras ou de simples orações. Claro que tudo isso ajuda; mas o mais importante é sempre levar bem a nossa cruz. A “via régia” que leva ao paraíso é e será sempre a da cruz. Para chegar à glória não há outro caminho que o da imitação de Jesus em sofrimento. mas Jesus não  se deixa ultrapassar em generosidade; ele dá-nos uma grande paz e uma grande alegria. saber sofrer bem é um dom de Deus. Feliz de quem o recebe!

Devemos ter sempre esta atitude, por toda a vida: sacrificarmo-nos sempre. A Paixão do senhor há-de sustentar-nos nas canseiras e nos sofrimentos do apostolado, e também na hora da morte. é na cruz do senhor que o sangue dele nos lava! Ajoelhemo-nos aos pés de Jesus crucificado e peçamos-lhe que nos purifique. é a seus pés que se aprende a generosidade no sacrifício. quem não participa sentidamente no memorial que a Igreja celebra da Paixão de Jesus, ou não tem coração ou não tem juízo.

Páscoa da ressurreição

71. A Páscoa é uma festa que nós apreciávamos quando éramos crianças, uma festa que tocava o coração das pessoas. “Cristo, ressuscitado dos mortos, não morrerá mais; a morte já não tem poder sobre Ele” (Rm 6,9). E nós devemos ressuscitar para o fervor – não só ressuscitar do pecado mas de qualquer tipo de fraqueza. Guardemos sempre o fervor que sentimos nesta festa. Já não se volta a morrer! Digamos todos a nós próprios: “Ressuscitámos; não queremos voltar a morrer; queremos ser verdadeiros missionários e missionárias!” não tenhais medo de ser demasiado fervorosos!

72. Ao aparecer aos apóstolos, logo a seguir à ressurreição, Jesus fez-lhes a saudação da paz. É uma coisa maravilhosa, a paz! Santo Agostinho diz que ela consiste na tranquilidade da ordem. Quando tudo está em ordem dentro de nós e à nossa volta, é então que estamos em paz. Portanto é preciso estar em paz com Deus, cumprindo a sua vontade; connosco mesmos, evitando as distracções, controlando as paixões e livrando-nos de desejos inúteis; e em paz com o próximo, sobretudo aceitando as suas limitações e tratando bem todas as pessoas. A paz pode andar na companhia do sacrifício e da tribulação, mas não pode existir na companhia do pecado. Por meio desta paz, que é dom de Deus, avançareis com tranquilidade e tereis melhores resultados em tudo. Pedi-a a nosso senhor desde que estejais dispostos a fazer o que é necessário para a conservar.

73. Neste tempo pascal sente-se a necessidade de exclamar “aleluia!”. A Igreja manda-nos repeti-la muitas vezes na liturgia, acrescentando “Este é o dia que o senhor fez; alegremo-nos e nele rejubilemos” (Sl 117,24). Também é doce e suave a oração que dirigimos a nossa senhora durante o tempo pascal: “Alegrai-vos, Rainha do Céu, aleluia!”. O espírito da Igreja nesta quadra é feito de alegria. Quem porventura não quisesse participar nesta festa ou não sentisse alegria em vivê-la, não teria nem coração nem alma.

A alegria é uma virtude que devemos possuir. Nunca estamos alegres em demasia. Estaríamos, sim, se a nossa alegria fosse mundana, grosseira. Mas nunca estamos demasiado alegres, em termos de alegria espiritual, de alegria verdadeira. Assim sendo, alegremo-nos sempre, todos os dias do ano. Deus gosta de pessoas alegres e tem predilecção por elas. Diz um salmo: “servi ao senhor com alegria” (Sl 99,2). São Paulo exorta-nos deste modo: “Alegrai-vos no senhor sempre”; e como se isto não chegasse, volta a dizer: “Alegrai-vos” (Fl 4,4). Deus quer que estejamos sempre alegres, até mesmo a dormir – como as crianças que, quando dormem, têm uma expressão maravilhosa, sorridente! Vive-se melhor na alegria, e com maior perfeição. O salmo diz “Corro pelo caminho dos vossos mandamentos porque dilatastes o meu coração” (Sl 118,4), ou seja, quando mo alargais à confiança, à confidência e à alegria. Nessas ocasiões não só caminho como até corro, pela estrada dos vossos mandamentos. Mas quando nos enterramos na melancolia acabamos por caminhar devagar, com pés de chumbo.

Andemos alegres também com o próximo, para que não tenha que nos suportar, mas possa dizer: “Estes missionários e missionárias deixaram a casa, os parentes e tudo mais, mas têm sempre um coração alegre”. Se quisermos mesmo fazer o bem, temos que andar alegres; o próximo fica edificado e será atraído à virtude. Uma pessoa pode ser santa, mas se andar toda fechada em si mesma, de portas trancadas ou de trombas, mete medo e ninguém ousará aproximar-se dela.

Claro que a alegria não deve ser desenfreada. Ela nada tem a ver com a dissipação, com andar por aí aos gritos, em virar a casa de pernas para o ar. Falar, sorrir, isso sim, mas com moderação, porque a alegria é uma virtude; tende cuidado para que não degenere.

74. A alegria opõe-se à tristeza. E é preciso arranjar coragem para que a tristeza não degenere em desespero. Quando se vive na tristeza já não se anda a fazer o bem. Há quem seja tristonho desde a nascença, por temperamento. Outros são tristes sem saberem porquê. E ainda há aqueles para quem tudo é pesado: nunca estão contentes com nada – se pudessem estavam sempre a mudar; precisam constantemente de novidades e, por isso, deixam-se possuir pela náusea e pela melancolia. É preciso ter um carácter constante, não ser como canas agitadas pelo vento, ora alegres ora tristes. Se fordes fazer isso na missão, que acontecerá? A tristeza entorpece a mente, resfria a vontade e retira a paz às pessoas.

Vamos vencer a tristeza com a oração, com o desejo de nos santificarmos, contentes com a situação actual, acolhendo o bem e o mal como provenientes da vontade de Deus – e com a paciência de quem suporta as contrariedades. Façamos o propósito de viver uma vida santamente alegre e fervorosa. Uma comunidade em que todos tomassem esta resolução tornar-se-ia um paraíso antecipado. Sempre haverá fraquezas, mas nós cá estamos para as aceitar, para nos aguentarmos e nos santificarmos. Não devemos ceder à tristeza; pelo contrário, devemos pôr tudo nas mãos de Deus, edificando-nos uns aos outros. Não quero que esta casa seja uma casa de macambúzios, mas sim uma casa de gente alegre. Se não vos souberdes vencer agora, em missão não sabereis travar o mau humor e só fareis mal às pessoas.

Gosto daquelas pessoas que pautam a sua vida segundo a vontade de Deus, que procuram e encontram segurança nas suas mãos. Quanto nos agrada ver uma pessoa que vai a direito, sempre em frente! Quero que sejais pessoas alegres. É preciso ter saúde na alma e no corpo. O meu desejo é que aqui se conserve, e aumente sempre, o espírito de tranquilidade, de desembaraço e de serenidade. Eis o espírito que quero ver instalado aqui: uma alegria constante, uma cara sempre alegre!

Ascensão

75. A Ascensão é um mistério da salvação que vai directo ao coração, que enche a alma de êxtase. O senhor levou os apóstolos para o topo da montanha para os fazer participar na sua gloriosa subida ao céu. Pelo caminho, foi-lhes dando os últimos conselhos, até que uma “nuvem” veio tirá-lo da sua vista. Eles ficaram extáticos, mas eis que um anjo logo os sacudiu: “Homens da Galileia, por que estais a olhar para o céu? Este Jesus que foi levado ao céu do meio de vós há de voltar um dia, da mesma forma que o vistes subir” (Act 1,9-11). Se calhar os apóstolos terão querido responder: também nós queremos ir para o céu! Não, nem por sombras; ide primeiro trabalhar muitos anos; fazei o que ele mandou. E tiveram que voltar para Jerusalém.

A Ascensão é portanto uma festa de paraíso. O nosso coração está com Jesus e nós subimos com Ele. Ele já foi glorificado e está sentado à direita do Pai a interceder por nós (cf. Ef 7,25) e a preparar-nos um lugar, como prometeu aos apóstolos (cf. Jo 14, 2-3). Sim, Jesus já preparou um lugar no céu para mim, para cada um de vós – basta querê-lo. Este pensamento deve dar-nos coragem, deve ser um estímulo para nos tornarmos dignos enquanto missionários e missionárias da Consolata, deve dar-nos vontade de trabalhar nesta vida, para depois o fruirmos na eternidade. Tenhamos coragem e constância! o céu dá trabalho, mas nunca será suficientemente merecido.

Consideremos especialmente as últimas palavras que Jesus dirigiu aos apóstolos antes de subir ao céu: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa notícia a toda a Humanidade!” (mc 16,15). Jesus conferiu este mesmo mandato aos missionários e às missionárias. É uma enorme consolação! O senhor Jesus, naquele momento, pensou em cada um de nós. Dá para ver que tinha grande amor à sua Igreja. Poderia ter dito aos apóstolos: sede um pouco mais pacientes, melhores, mais caridosos, mais humildes, etc. Mas não. Ele disse: “Ide pelo mundo inteiro…”.

Jesus quis acrescentar ainda promessas de ajuda sobrenatural, extraordinária, ao dizer: “os sinais que acompanharão aqueles que acreditarem são estes: expulsarão demónios em meu nome, falarão novas línguas” (Mc 16, 17). Naquela ocasião, Jesus pensou em nós, missionários e missionárias – nós que continuamos a missão que confiou aos apóstolos. Quanta consolação devemos sentir com tais promessas, que aliás se concretizaram nos apóstolos de todos os tempos! Antes de subir ao céu, Jesus também disse: “Ficai na cidade até serdes revestidos do poder do alto” (Lc 24, 48). É como se dissesse: não vos deixeis levar pela ânsia de evangelizar; preparai-vos primeiro. Portanto, antes de começar a fazer missão, é preciso prepararmo-nos através da graça que o Espírito santo nos comunica.

Pentecostes

76. “Entretanto digo-vos a verdade – afirmou Jesus: é melhor que Eu vá, porque, se não for, o Advogado não virá a vós. Mas se Eu for, enviar-vo-lo-ei” (Jo 16,7). O Espírito Santo não desce apenas com os seus dons e com os seus frutos; Ele desce em pessoa. Jesus não disse: “Recebei os dons do Espírito santo”, mas “Recebei o Espírito santo” (Jo 20,22).

É o Espírito santo quem aplica os méritos da redenção ope rada por Jesus; é ele quem converte e santifica as pessoas. Ele ilumina-nos e conforta-nos; concede-nos a graça para que nos salvemos e nos santifiquemos; oferece-nos os seus dons. Em todas as épocas é o Espírito santo quem forma os santos.

Os apóstolos, reunidos no cenáculo, perseveravam uni dos e em oração com maria santíssima (cf. Act 1, 14). Ela ajudou os apóstolos e conseguiu-lhes a abundância do Espírito Santo; o mesmo fará connosco. O espírito santo não se manifesta no meio do barulho e da distracção, mas sim no recolhimento. Encaminhai tudo o que fizerdes para este objectivo – o de obter a plenitude do espírito santo. Naquele cenáculo estavam todos unidos, todos eram unânimes. Isto é muito importante, porque onde falta o amor, o espírito santo não entra lá.

A Igreja nasceu no Pentecostes sob o impulso do Espírito Santo. É ele quem dirige a Igreja, e até ao fim do mundo. O Papa e os Bispos continuam a guiá-la sob a égide do Espírito Santo. O Pentecostes costuma ser designado como “segunda Páscoa”. São João Crisóstomo define o Pentecostes como o resumo de todas as outras festas. São Máximo escreveu que não é apenas uma comemoração; é mesmo a renovação da descida do Espírito Santo, sob outra forma. Tal como então, o Espírito desce neste dia, de forma invisível, claro, sobre a Igreja e sobre os fiéis que se prepararam para ele. A própria difusão da fé é resultado da acção do Espírito santo. Portanto, é a ele que se deve atribuir todo o bem que se faz nas missões.

77. Atribuem-se ao Espírito santo as obras do amor e da graça. Ele é todo amor e, pelo amor que nos tem, deseja ardentemente comunicar-se a nós. Ora, o amor requer amor. Os nossos deveres para com o Espírito santo são estes: conhecê-lo, amá-lo e segui-lo. Peçamos-lhe que ilumine os nossos corações de forma a fazer de nós novas criaturas. Do Espírito Santo recebemos toda as graças, mas sobretudo o amor. Não faremos ofensa ao Pai se amarmos o Filho; da mesma forma não faremos ofensa ao Filho se amarmos o Espírito santo. Foi este amor que inflamou os apóstolos no anúncio ardoroso do evangelho. Também nós precisamos de tal ardor; e é do Espírito santo que devemos consegui-lo.

É difícil viver sob a influência do Espírito santo e não conseguir ser santo. Vamos então ouvir de boa vontade a voz com que ele fala ao nosso coração, que aliás é a voz da graça; e procuremos pô-la em prática. Sigamos o Espírito santo com generosidade e com constância. Se recebermos bem o Espírito santo, todos seremos apóstolos autênticos, e santos. Coloquemo-nos nas suas mãos; deixemo-lo trabalhar; sigamo-lo com docilidade – em suma, que o Espírito santo cumpra a nossa santificação. Quando recebemos o Espírito santo e os seus dons e frutos, ficamos de facto transformados.

Diz-nos são Paulo: “não entristeçais o Espírito santo com que Deus vos marcou para o dia da libertação” (Ef 4,30). Há três impedimentos possíveis à sua vinda: o pecado, o espírito mundano, e uma perspectiva demasiado terrena da vida.[1] o pecado, em primeiro lugar, porque o Espírito, o santo dos santos, não poderá vir habitar onde vive ou reina o pecado. É o pecado que apaga em nós a graça de Deus e, portanto, o Espírito Santo. São Paulo faz a seguinte recomendação: “não extingais o Espírito” (1Ts 5,19).

O espírito mundano e uma perspectiva demasiado terrena da vida também impedem a vinda do Espírito santo por que Ele é Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê nem o conhece” (Jo 14,17). São Paulo explica que “os que vivem segundo os instintos egoístas inclinam-se para os instintos egoístas; mas os que vivem segundo o Espírito inclinam-se para aquilo que é próprio do Espírito” (Rm 8,5). Já são João Crisóstomo explicava que a luz do Espírito santo pode vir a ser apagada pelo vento ou por falta de óleo, quer dizer, pelo espírito do mundo ou pela falta de boas obras.

78. Recordo, de quando era seminarista, que um dia fui acompanhar o santo Viático a um padre que se encontrava gravemente doente. Pois soube-se que aquele santo sacerdote, enquanto esperava a santíssima Eucaristia, ia repetindo a sequência do Veni Sancte Spiritus (“Vinde Espírito santo”). Eu por vezes recito-a antes de celebrar a santa missa e o mesmo podereis fazer vós. Às palavras “Vinde Pai dos Pobres”, nós que somos tão fracos e cheios de defeitos, enchamo-nos de confiança, porque o senhor já se declarou protector dos miseráveis. Dizem que as abelhas fogem do barulho; da mesma forma o Espírito exige tranquilidade, quer dizer, recolhimento. Da sequência “Vinde Espírito santo” aproveitai para fazer muitas jaculatórias que podeis repetir durante o dia. Digamos ao senhor: “Enviai o Vosso Espírito e fazei que crie em mim um coração novo”.

Recitemos também o Veni Creator Spiritus (“Vinde Espírito Criador”). Se reflectirmos bem nesta oração, isso irá ajudar-nos muito. Ela começa assim: “Vinde, Espírito Cria dor; iluminai, visitai a nossa mente e enchei os nossos corações, que a Vossa bondade criou”. Fazemos este convite logo de início para que Ele venha e nos encha com a sua graça. A seguir vêm os atributos: “Vós que vos chamais Paráclito, que sois dom do Altíssimo, fonte viva, fogo e amor”. São lindos estes títulos, todos tirados da sagrada Escritura. Depois começa a falar dos seus dons: “Vós dais-nos sete dons, sois o dedo da mão direita do Pai, fostes prometido aos apóstolos”. E dito isto, chega uma oração: “Acendei a luz dos sentidos da mente, da inteligência, e ajudai-nos com a vossa força”. E finalmente pede-se que haja paz, que evitemos o pecado, que possamos conhecer o Pai e o Filho.

Devemos aumentar sempre a graça de Deus em nós e corresponder-lhe. Exactamente: corresponder à graça divina para que não se apague em nós o amor, que é o próprio Espírito santo. Por vezes somos bastante pobres em dons do Espírito santo porque nos falta o vigor, porque levamos uma vida de mediocridade. Reavivemos em nós a graça de Deus. O Espírito Santo encarregar-se-á desse trabalho, mas antes disso quer que façamos o que está ao nosso alcance.

79. Como os dons do Espírito santo são prenda dele, peçamos-lhe que os aumente em nós – a sabedoria, para sabermos apreciar as coisas espirituais, almejar apenas o paraíso e não ligar demasiado às coisas temporais; o entendimento, ou seja, saber ler por dentro, essa luz que dissipa as trevas e nos faz pensar nos mistérios, gerando a paz ao acre ditarmos; o conselho, para nos encaminhar, a nós e aos outros, para a virtude e para a santidade; a fortaleza, para vencermos a fraqueza nas dificuldades e nos perigos, tornando-nos capazes de nos sacrificarmos, e até mesmo de nos deixarmos martirizar; a ciência, para nos demarcarmos da preocupação com as coisas materiais em proveito das eternas; a piedade, para honrar a Deus como Pai e também o próximo, como irmãos e irmãs; o temor de Deus, para que tenhamos o cuidado de não o ofender, visto que é nosso Pai.

Os frutos do Espírito Santo, segundo a doutrina de são Paulo são: “amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão, autocontrole” (Gl 5,22). Segundo santo Ambrósio, chamam-se frutos porque “restauram na alma o amor sincero e porque contêm grande doçura e suavidade”. Quem beneficia destes frutos vive do Espírito santo. É preciso saboreá-los e, para o fazer, é preciso que sejamos devotos do Espírito Santo. São suaves para o coração; fazem-nos passar por cima das misérias desta vida e fazem-nos apreciar a mortificação.

80. São Paulo declara que somos templos do Espírito Santo: “não sabeis que sois templos de Deus e que o Espírito santo habita em vós?” (1Cor 3,16). Então, se somos templos de Deus, somos como que igrejas, cada um de nós. E o que se faz numa igreja? Muita coisa: atende-se à limpeza material e espiritual; faz-se silêncio e ficamos concentrados; reza-se; oferecem-se sacrifícios, sobretudo o sacrifício Eucarístico; ouve-se a Palavra de Deus e o Espírito fala-nos; fazem-se festas, com toda a alegria, ornamentando a alma com actos de virtude.

Quando recebemos o Espírito santo é como se recebêssemos a santíssima Eucaristia, quer dizer, recebemo-lo em pessoa. O Espírito santo alegra-se por habitar em nós. Meditemos muitas vezes nesta grande e consoladora verdade. Nas missões precisareis do Espírito santo. Será Ele a ajudar-vos e, se for preciso, far-vos-á milagres. Estamos a falar duma devoção que deve ganhar raízes em vós. E é preciso que se mantenha durante toda a vida, de mês a mês, dia a dia, hora a hora. Muito haverá ele de vos ajudar nos momentos de tristeza e abatimento, sobretudo nas missões. Se invocardes o Espírito santo nessas ocasiões, certamente que ele vos encherá de coragem e vos dará um enorme empurrão para a frente. O Espírito santo consola e sara todas as feridas.

Então estamos entendidos: jamais abandonaremos o Espírito Santo; sempre haveremos de o trazer dentro de nós.

São Filipe de Néri queria que os seus religiosos fossem todos filhos do Espírito santo, e eu também. Exactamente: sede todos filhos e filhas do Espírito santo!

Corpo de Deus

81. Penso que faltaria ao meu dever e à minha devoção se deixasse passar a festa do “Corpo de Deus” sem assinalar este grande mistério. Na verdade, a festa do Corpo de Deus comemora-se na Quinta-Feira Santa, no contexto da celebração da Paixão do senhor. Mas para lhe dar mais brilho, a Igreja transferiu-a para depois do Pentecostes.

Esta festa deve ser a festa do coração, do agradecimento. Nestes nossos Institutos, o dia do “Corpo de Deus” deve ser uma ocasião para renovar e fazer aumentar o amor a Jesus sacramentado. Recitai com fé e com todo o coração a oração O Sacrum Convivium (“Oh sagrado Banquete”). Recitai-a com inspiração: “Oh  sagrado Banquete em que se recebe a Cristo!”.  Jesus está ali totalmente presente, tal como está no céu.  

“Comemora-se a Paixão”: “Fazei isto em memória de mim”, disse Jesus aos apóstolos, como lemos em são lucas (Lc 22,19) e tal como são Paulo confirmou: “sempre que comeis deste pão e bebeis deste cálice, vós anunciareis a morte do senhor até que Ele venha” (1Cor 11,26).

“A alma fica cheia de graça”: deste sacramento recebemos não uma medida qualquer de graça mas a sua plenitude. Temos então que ir à sagrada Comunhão permeados de graça, de forma que não haja parte alguma de nós que não esteja impregnada por ela. Não é, porventura, o próprio Autor da graça que estamos a receber?

“E nos é dada a garantia da glória futura”, quer dizer, a Eucaristia é um penhor. Jesus, ao querer deixar-nos um dom, deixou-se ficar a si próprio no meio de nós. Já possuímos o céu nesta terra. Na verdade todos os tesouros da sabedoria e da ciência divina já se encontram neste sacramento. Ao dar-se a si mesmo, Jesus deu-nos realmente tudo. Santo Agostinho diz a este propósito: “Apesar de ser omnipotente, não podia dar-nos nada mais; apesar de ser sapientíssimo, não podia saber dar-nos mais. Apesar de ser riquíssimo, não nos podia ter oferecido um dom maior”.

Sagrado Coração de Jesus

82. A festa do sagrado Coração de Jesus é uma espécie de continuação, a conclusão da festa do “Corpo de Deus”. A Igreja ensina que esta festa foi instituída para recordar o amor de Jesus por nós durante a sua Paixão, da qual a Eucaristia é memorial perene. Eis porque estas duas festas, apesar de distintas, estão intimamente unidas.

Devemos ao Coração de Jesus tanta honra como à santa Eucaristia. Estas duas devoções, embora tenham uma finalidade diferente, explicam-se e integram-se mutuamente. A devoção ao sagrado Coração de Jesus permite-nos compreender o imenso amor que Jesus teve para connosco, ao deixar-nos a Eucaristia; e a Eucaristia permite-nos compreender Jesus e oferece-nos o seu Coração.

O Coração de Jesus que a Igreja venera é o mesmo coração que tanto sofreu durante a sua vida terrena, sobretudo durante a Paixão. É o coração que no Jardim das oliveiras suportou um enorme sofrimento devido aos pecados da humanidade, e que foi atravessado pela lança na cruz. Pres temos honra, adoração e amor a este Coração aberto pela lança. É meu desejo que entendais bem em que consiste esta devoção, que tem por objecto o Coração vivo do Senhor. Por que razão terá a Igreja preferido adorar o coração? Porque, com base na percepção geral e popular, ele é a sede dos sentimentos. Tudo deriva da vontade e do coração. se ele parar, a vida acaba. Esta devoção não é nova; é inclusive tão antiga como a vinda do Filho de Deus ao mundo.

Os nossos dois Institutos estão consagrados ao Coração de Jesus. Esta consagração não é mais que uma renovação e ratificação da que se fez no baptismo; é o reconhecimento dos direitos que Jesus tem sobre nós; é o culto de honra e de justiça que, por mil e uma razões, devemos ao nosso Criador e Redentor, nosso sumo Bem. Trata-se de uma devoção que deve existir sempre aqui. E eu espero dela muitas graças, o aparecimento de novos missionários e missionárias, a sua santificação e o seu zelo pela missão.

Festa de Todos os santos

83. Fixemos os nossos olhos e o nosso coração no paraíso, para assim nos podermos alegrar com os santos. Pensar no céu deve ser o acto dominante neste dia. Eu estou convencido de que no céu haverá santos mais santos do que aqueles que veneramos nos altares. Não precisam de processo canónico; é Deus quem actua sobre eles logo a seguir à morte, num abrir e fechar de olhos. Há decerto muita coisa a ver por lá!

Como é maravilhoso tudo aquilo que a Igreja nos propõe! É preciso viver do espírito da Igreja, que a cada dia nos dá um alimento espiritual, que nos faz viver o espírito de Deus. Pois neste dia a Igreja convida-nos a exultar: “Exultemos todos no senhor ao celebrarmos a festa de todos os santos!”. E para que a nossa alegria produza frutos de santificação, meditemos sobre como abordar os santos e sobre os nossos deveres para com eles. Antes de mais devemos honrá-los porque são amigos de Deus, nossos irmãos mais velhos e nossos benfeitores. É uma prática sadia propormo-nos um santo para cada ano para honrar e imitar de forma explícita. E também devemos celebrar de forma muito especial o aniversário do santo do nosso nome. Devemos honrar também os santos indicados para cada dia, tendo especial devoção aos padroeiros da diocese, da paróquia, dos nossos Institutos e dos lugares para onde formos.

Além disso devemos invocá-los. São nossos intercessores que têm o poder e a vontade de nos obter as graças necessárias. Portanto, recorramos a eles com confiança e com amor. Quando precisarmos duma virtude específica, recorramos à intercessão dos santos que primaram por tal virtude, como por exemplo: são Tomás, santo Afonso, são Francisco de sales, no que toca ao saber; são luís, são João Berchmans, santo Estanislau Kostka no que toca à pureza; são Francisco Xavier, são Pedro Claver, são Fiel de Sigmaringa, o Beato Chanel, no que toca ao zelo apostólico, etc. Também vos recomendo especial devoção aos santos que são menos lembrados. O nosso pai, a nossa mãe, uma pessoa conhecida... Também podem ser santos.

É uma forma de pensar, mas que tem o seu fundamento.

Por fim, é preciso imitá-los. Os santos são modelos que podem ser imitados por todos, porque nos apresentam uma variedade de vidas e heroísmo na virtude. Também eles andaram por aqui e estiveram sujeitos a tribulações e tentações: tiveram os seus defeitos, mas, com a graça de Deus, santificaram-se. Digamos a nós próprios, com santo Agostinho: “se estes e estas o conseguiram, por que não eu também?”. Se estes e estas, com as mesmas condições de vida, conseguiram santificar-se, por que não poderei eu fazer o mesmo? É esse o resultado que devemos obter da festa de um santo.

Elevemos portanto o nosso pensamento aos santos para os honrar, invocar e imitar; pensemos no que nos poderão dizer lá do céu. Eles estão agora no pleno gozo da felicidade; mas se ainda pudessem desejar algo, certamente seria terem sido mais virtuosos, mais apostólicos, etc. Há por aí muitos que fazem um grande frete em ser missionários, religiosos... Pobrezinhos! Vivamos acima do tecto! Ele emo-nos! Digamos: quero viver de paraíso, só de paraíso!

Digamos aos santos que falem connosco; e depois ouçamo-los, imitemo-los. A Igreja manda-nos venerar uma multidão de santos para que, com a sua intercessão, eles aumentem em nós a graça. A lembrança dos que são santos dura eternamente! Portanto, olhemos para o alto, muito lá para cima! Corações ao alto!

Memória dos Fiéis Defuntos

84. A “comunhão dos santos” que professamos no Credo é dogma de fé. A Igreja é, ao mesmo tempo, militante, purgante e triunfante. Estes seus três aspectos são como três ramos duma mesma árvore, três províncias de um Estado ou três classes de cidadãos numa dada sociedade, e assim por diante. A morte não quebra esta unidade. São Paulo escrevia aos Romanos que nós constituímos um só corpo em Jesus Cristo e que cada um de nós é membro deste corpo (cf. Rm 12,5).

Que o purgatório existe já vós o sabeis, e que também existe a comunhão dos santos. Por isso, rezar pelos defuntos é, segundo são Tomás e são Boaventura, um elevado acto de caridade para com deus e para com o próximo. Os meios do sufrágio são: as obras de caridade, as orações públicas e privadas, os sacrifícios e as esmolas. Mas o meio principal é sempre a santa missa, porque é o sacrifício do altar que os ajuda directamente.

Devemos rezar muito pelas almas do purgatório, sobretudo pelas dos missionários e das missionárias. As nossas Constituições indicam quais os sufrágios que se devem fazer por ocasião da respectiva morte. Mas rezemos também pelos nossos benfeitores já falecidos. Trata-se duma obrigação sagrada de reconhecimento. Afinal, que poderíamos nós ter feito até aqui sem a sua ajuda? De entre os principais lembremos monsenhor Demichelis, de quem recebemos a primeira casa-mãe; e a sua irmã, que nos deixou o palacete de Rivoli; o engenheiro Felizzati, que era professor de matemática na universidade e queria tornar-se missionário. Quando morreu, com 42 anos, fez-me seu herdeiro, apesar da minha oposição a essa ideia, mas ele respondeu: “Deixe que morra em paz!”; e o abade Nicolis di Robilant, etc. Eles lá do céu, onde tudo vêem em Deus, sabem das nossas necessidades e hão-de enviar algumas boas inspirações a quem tem meios para nos ajudar.

Não nos esqueçamos dos nossos confrades e irmãs que já partiram. Todos os dias rezamos por eles, especialmente na santa missa. Como é lindo ouvir nas nossas comunidades o “lembremos o aniversário da morte do nosso confrade ou irmã... Tal de tal...” Dessa forma todos são convidados a rezar por eles. E também tudo aquilo que se realiza numa comunidade é oferecido em sufrágio. A comunidade inclui sempre vivos e defuntos; este é um laço que jamais se quebrará, nem sequer no céu.

Há poucos dias, fiz uma peregrinação, sozinho e a pé, até ao cemitério. Primeiro entrei na capela, mas vi que não estava lá o Santíssimo Sacramento. Saí e comecei a minha peregrinação. Não parei para apreciar os túmulos de luxo; e comecei pelo lado direito, a partir do túmulo do Pe. Inácio Viola, que costumava celebrar bem a santa missa. Depois parei na sepultura onde antigamente se guardavam os restos mortais de são José Cafasso. Parecia-me reler naquele sepulcro as palavras “não está aqui!” (cf. Mt 28,6). Naquela área também se encontram muitos padres da Pequena Casa do Cottolengo, incluindo o Doutor L. Guala, que se deliciava em trabalhar pela glória de Deus. Tive aí uma breve conversa com ele, pedindo-lhe bom espírito, boa atitude, para nós. Depois passei à sepultura do Cónego G. M. Soldati, que era reitor do seminário nos meus tempos; falei-lhe de forma confidencial e acho que no fim nos entendemos melhor. A seguir, passei à da senhora De Lucca, às das Irmãs da Visitação, às das sacramentinas e às das Josefinas, parando por instantes na sepultura de monsenhor Demichelis, a quem disse: “quando te voltar a ver no céu, será que te verei contente pelo uso que fizemos dos teus bens?”; e conversei um bocadinho com ele. Depois fui parar à sepultura do abade Nicolis di Robilant, que durante a sua prolongada doença sempre viveu com serenidade e com alegria. Por fim, depois de ter passado pelas sepulturas dos bispos, voltei a casa de eléctrico.

O dia da memória dos Fiéis Defuntos nunca foi para mim um dia de tristeza mas sim de alegria. Não ando por aí a dizê-lo a outras pessoas; mas vós sabeis compreender-me.

 

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[1] José Allamano costumava usar a expressão “espírito demasiado humano” para indicar a postura das pessoas que vivem sem levar em conta os princípios da fé. Tendo em consideração a sensibilidade e o modo de expressão das ciências an tropológicas dos nossos dias, a ideia de José Allamano logrará melhor expressão se se disser “perspectiva demasiado terrena da vida”.