A Fé

85. Duplamente bem-aventurados. santo Agostinho com parava a santidade a um edifício que, para poder ser erguido, exige bons alicerces, em cima dos quais depois se constroem, de forma bem ordenada, os vários pisos. o mesmo acontece com a nossa santidade: ela assenta na fé, constrói-se com a esperança e aperfeiçoa-se com a caridade. A fé é então o fundamento da santidade e, por isso, de todas as outras virtudes.

Um dia Jesus disse aos discípulos: “Felizes os olhos que vêem o que vós vedes. Pois Eu digo-vos que muitos profetas quiseram ver o que vós vedes e não puderam ver” (Lc 10, 23). Foi certamente uma grande bênção poder viver no tempo de Jesus, conhecê-lo em pessoa, ouvi-lo falar, e testemunhar os seus milagres. Não tiveram a mesma sorte os patriarcas, os reis e os profetas do Antigo Testamento. Como Abraão, eles ansiaram por ver o messias: “Abraão, vosso pai, alegrou-se porque viu o meu dia. Ele viu e encheu-se de alegria” (Jo 8, 56). Pois viu, sim, mas só numa aparição, tal como David e Isaías, que por antecipação escreveram sobre a sua vida. Mas os discípulos, esses sim, pu- deram ver Jesus em pessoa e conviver com ele de um modo familiar.

E nós não somos bem-aventurados? Depois de lhe ter mos trado as chagas, Jesus disse a Tomé: “Acreditaste por que viste. Felizes os que acreditam sem terem visto” (Jo 20, 29). Portanto, também nós somos bem-aventurados, contanto que tenhamos fé nele. E vede bem: primeiro, porque acreditamos sem ver; e depois, porque realmente vemos e ouvimos. Não é necessário que vejamos com os olhos e ouçamos com os ouvidos do corpo para podermos dizer que vemos e ouvimos. Também podemos conhecer através da história, já que é por ela que sabemos o que Jesus disse e fez durante a sua vida terrena, e, bem assim, durante os vários séculos, por intermédio da Igreja. Ele está sempre connosco, até ao fim dos tempos, principalmente no Santíssimo Sacramento, tão vivo como está no céu, onde o podemos ver com os olhos da fé, e também ouvi-lo.

86. Viver de fé. Que significa “viver de fé”? É a mesma coisa que nos configurarmos ou modelarmos segundo os ditames da fé. Se ela é o princípio ou a norma das nossas acções, então devemos procurar fazer tudo segundo os critérios que a fé impõe. Devemos julgar tudo à luz da fé, apre ciando cada coisa ou situação pelo valor que a fé lhe atribui. A fé é necessária a todo o cristão que quiser salvar-se: “sem a fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6). Sem que haja mérito algum da nossa parte, nós recebemos esta fé no baptismo, que nos reconduz à ordem sobrenatural. O espírito de fé deve acompanhar-nos em todas as acções, de manhã até à noite, de dia e de noite; e deve ser uma certeza viva e profunda que guia a nossa vida concreta.

São Paulo recomendou a fé a Timóteo nestes termos: “Tu, porém, homem de Deus, [...] Procura a fé” (1 Tm 6, 11), ou seja, procura manter a fé e aperfeiçoá-la. Como se poderá fazer isso? Como a fé é um dom de Deus, devemos pedi-la com insistência. Antes de curar um rapaz possuído pelo demónio, Jesus exigiu ao pai – que lhe pedira para intervir – que fizesse uma profissão de fé. O homem respondeu pedindo que lha aumentasse: “Eu tenho fé, mas ajuda a minha pouca fé.” (mc 9, 24). Da mesma forma de veremos nós dizer a nosso senhor: ajuda-me a acreditar! Ou então: “Aumenta a nossa fé” (Lc 17, 5). Santo Agostinho exorta-nos a rezar muitas vezes e bem o Credo, pois que contém as verdades da fé, que são como pedras preciosas. é preciso que vivamos de fé: “o meu justo vive pela fé” (Hb 10, 38).

87. Nas missões. Para chegarmos a Deus não são precisas grandes palavras; o mais importante é ter um grande espírito de fé. E se essa deve ser a disposição normal de toda a gente, os missionários e missionárias têm, por maioria de razão, de alimentar esse espírito de fé! Sem ele, como será, lá nas missões? Deveis promover a fé em muitos milhões de não-cristãos. “Eu te garanto: ninguém pode entrar no Reino de Deus se não nascer da água e do Espírito” (Jo 3, 5). Aí tendes qual é o valor da fé para nós e para os outros! E felizes de vós por terdes tão sublime missão! A grandeza da nossa fé deve ser tal que nos permita professá-la publicamente, até ao martírio.

Se tivermos espírito de fé, jamais nos sentiremos abandonados. De facto, todos poderão abandonar-nos, mas deus nunca. Se alguém viver da fé, até o fardo da responsabilidade missionária se desvanecerá, porque é verdade que nada conseguimos sozinhos; na companhia de deus somos omnipotentes. É neste sentido que pedimos o aumento da nossa fé. Aqui, o importante não está tanto em pedir a fé teológica, que aliás já possuímos; trata-se, sobretudo, do aumento da fé prática e do espírito de fé. Diz-se de são J. B. Cottolengo que ele tinha mais fé sozinho que todos os turinenses juntos. É preciso ter uma fé vivíssima. Nem sequer um cabelo da nossa cabeça se perderá sem que deus queira (cf. Lc 21, 18). Portanto, peçamos o aumento da nossa fé. Tem que haver sempre pelo menos uma centelha de fé a presidir a todas as situações.

88. Uma fé prática. Dir-me-eis que, graças a Deus, tendes fé e a apreciais. Pois bem: o que tendes será talvez uma fé teórica; mas… e a fé prática? Porque não chega ter fé. se a nossa fé não se traduz em obras, é porque está morta: “In sensato, queres ver como a fé sem obras não tem valor?” (Tg 2, 20).

Oxalá todos os nossos pensamentos estejam em conformidade com a fé. Interroguemo-nos sempre: será que este meu pensamento agrada a deus? É isso, seguramente: sempre e só a deus. Ser todo de deus, ser só para deus e estar apenas em deus! Rua com os pensamentos inúteis! É destes pensamentos inúteis que provêm certos juízos – sobre os colegas, sobre as ordens dos superiores, sobre acontecimentos passados ou presentes, sobre as coisas deste mundo, etc. De que adianta tudo isto para a eternidade? Uma vez, são José Bento Labre, ao passar – todo esfarrapado e coberto de chagas – diante de um certo senhor, ouviu-lhe esta observação: “pobre desgraçado!”. E ele, todo sorridente, parou e ripostou: “muito pelo contrário! Não sou nada desgraçado, eu estou na graça de deus!”. Ora vejam: esse senhor usava critérios mundanos na sua avaliação, enquanto que este nosso santo avaliava segundo o espírito de fé. O mesmo se pode dizer dos falsos juízos que outros possam emitir a nosso respeito. Que interessa? “quem me julga é o senhor!” (1Cor 4, 4).

Será que todos os nossos sentimentos se deixam conduzir pelo espírito de fé? Será que não temos nenhum sentimento, nenhum apego, que esteja em contradição com o espírito de fé? Refiro-me ao apego que se pode ter às mais pequenas coisas, e que nos impede de sermos totalmente de deus. Um coração que anda cheio de deus revela-se até nas palavras: “pois a boca fala da abundância do coração” (Mt 12,34).

Portanto, em tudo o que fazemos é preciso pautarmo-nos pelo espírito de fé, principalmente em acções que mais directamente se referem ao serviço de Deus. O Bispo Dom Gastaldi, ao fazer uma visita pastoral a uma paróquia, encontrou todos os corporais e os demais vasos sagrados por limpar, enquanto que a roupa da casa estava impecável. Voltou-se então para o pároco e disse-lhe: “o senhor acredita na presença de Jesus no Santíssimo Sacramento?”. Resposta pronta: “O senhor Bispo está a ofender-me!”. Tornou o Bispo: “Não, eu quero uma resposta! Acredita ou não acredita?”. “Claro que acredito!”, respondeu o padre. “Pois tanto pior. Porque acreditando, não tem desculpa” – rematou Dom Gastaldi. Se eu agora perguntasse a cada um de vós “Acreditas na presença real de Jesus na hóstia consagrada?” – a vossa resposta seria certamente afirmativa. A seguir eu perguntaria: “Então por que fazes tão mal a genuflexão? E qual a razão das tuas distracções voluntárias? E porquê aquele enfado nas tuas visitas ao Santíssimo Sacramento? E qual a razão do teu esquecimento de Deus durante todo o dia?”. Não, não basta ter uma fé meramente teórica, abstracta. É preciso ter uma fé prática, daquela que configura todas as nossas acções diárias.

89. Uma fé simples e autêntica. Santo Agostinho admoesta-nos deste modo: “De repente aparece gente ignorante e arrebata o Reino dos céus, e a nós, com toda a nossa doutrina, só nos deixa a terra!”. Por certo que não devemos acreditar em coisas destituídas de autoridade e de boas razões; mas quando há razão para acreditar e quem ensina é verdadeiro, então temos de acreditar. Jesus exclamava: “Eu Te louvo, ó Pai, senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25). São Tomás de Aquino explica-nos que a fé não está apenas na razão, mas também na vontade; e que não é a razão, mas sim a vontade que nos impele a acreditar.

Um missionário ou missionária que não tenha esta fé simples e autêntica – uma fé que, ao anoitecer, não encontre a sua consolação aos pés de Jesus sacramentado – que poderá fazer? Quando não se tem esta fé humilde, simples e autêntica, já não se tem mesmo nada.

Podemos, e até devemos, estudar, aprofundar questões, mas devemos dizer sempre: senhor, eu creio! São Pedro exortava os primeiros cristãos nestes termos: “Como crianças recém-nascidas, desejai o leite puro da Palavra, a fim de que, com esse leite, cresçais para a salvação” (1Pd 2, 2). Força! Avancemos com humildade e com simplicidade em matéria de fé! Quem começa a duvidar de tudo, acabará por, pouco a pouco, duvidar dos artigos de fé. Pode-se tratar apenas de tentações; mas causam perturbação. Nesta casa tem de haver simplicidade. Quero que sejais simples, o que não é o mesmo que acreditar em tudo. Uma coisa é a fé simples, outra coisa é a credulidade. Jesus apressou-se a avisar-nos: “sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10, 16). 

90. Sob a orientação da igreja. Apreciai as verdades da fé; estudai a sua beleza, a sua razoabilidade, os benefícios que delas derivam, tanto no tempo como na eternidade, sob a orientação da igreja. O estudo poderá oferecer-nos uma ciência teológica, mas nunca uma fé católica. Ter uma fé católica é acreditar pelo simples facto de ser a igreja a propor uma dada verdade. Os nossos institutos, e bem assim cada um dos seus membros, devem estar unidos ao sumo pontífice e à igreja: “onde estiver Pedro, lá estará a Igreja”. Professemos, portanto, uma submissão total à igreja e ao papa; não a este ou àquele papa, mas ao papa como tal. Mesmo nas coisas em que há liberdade, nós queremos estar com ele. Se aqui dentro alguém pensar diferentemente do papa, mesmo em coisas que não são objecto de fé ou de moral, essa pessoa não encaixa em nós. Nós queremos ser “papalinos” no sentido total da palavra. Reze mos aos santos apóstolos Pedro e Paulo para que nos obtenham o dom de estarmos sempre, tanto colectiva como individualmente, do lado da santa sé. É uma graça que trará estabilidade ao instituto.

A esperança

91. Alargar a alma à esperança. Segundo santo Agostinho, e como já sabemos, o edifício da nossa santificação constrói-se com a esperança. Notai a importância que ele dá à esperança. E no entanto, em geral, nem todos têm por ela o mesmo apreço. As pessoas sentem a obrigação de acreditar mas têm medo de ter demasiada esperança, admitindo desânimos aqui e ali sob a capa do bem e do temor de Deus.

Não era assim são José Cafasso: ele foi o homem da esperança. Possuía esta virtude num grau máximo. Tinha tanta esperança que até a transmitia aos outros. Quando alguém lhe dizia que a porta do céu é estreita, logo respondia: “Ah sim? Então que passe um de cada vez!”. Era capaz de infundir esperança até nos condenados à morte, dando-lhes recados para levar a nossa senhora; e depois duma execução qualquer, exclamava: “lá vai mais um santo!”. E acrescentava: “Aqueles malandros estão a roubar-nos o céu!”. Tinha o dom de transformar o desespero na mais maravilhosa confiança. Não, nunca devemos entrar em desespero. A misericórdia de Deus é infinita! À pergunta sobre qual teria sido a virtude principal de José Cafasso, todos ficávamos na dúvida, porque nele tudo era essencial. Alguns diziam que a sua principal virtude era o zelo pela salvação das almas. Outros que era a confiança em Deus, porque de facto, tinha confiança que chegasse para si mesmo e até para os outros. Mas a esperança ou confiança em Deus foi certamente a grande característica de são José Cafasso. Eu fui testemunha nos processos de canonização! Há pessoas que até têm uma fé bastante viva; mas têm pouca esperança, não conseguem dilatar os horizontes da alma.

Portanto, demos largas à alma para uma vida de esperança. E que não se limite a esperar; que consiga esperar em grau superlativo – esperando contra todo o desespero. Quando se tem pouca esperança, ofende-se a Deus – que “quer que todas as pessoas se salvem” (1Tm 2, 4). São José Cafasso costumava dizer que certas pessoas encaram a sua salvação como um jogo de lotaria: “sabe-se lá se vou ganhar?!”. Assim fazem muitos cristãos: “quem sabe se irei salvar a minha alma?!”. Não, assim não dá. Devemos avançar com a certeza de que Deus compreende as nossas fraquezas, contanto que façamos algum esforço. Não devemos ter medo de ter demasiada esperança. Santo Hilarião encorajava-se, na hora da morte, dizendo: “serviste ao senhor durante setenta anos e agora estás com medo da morte?”.

Portanto não digamos: “quem sabe se irei salvar-me?!”. Digamos, sim: “quero salvar-me e por isso quero emendar-me dos meus defeitos, nunca perdendo a coragem”. O medo da própria salvação é algo que mais parece filho da preguiça do que outra coisa. É preciso sacudirmo-nos, lutar por ela, como aliás fizeram todos os santos. Nem sequer os pecados da vida passada nos devem tirar o ânimo. Não faz mal recordá-los, para nos mantermos humildes, mas não devemos estar ali sempre a lembrá-los como se Deus os não tivesse perdoado. Deus aprecia muito a confiança que temos na sua bondade, na sua misericórdia! Por tanto, devemos ter esperança, esperar com toda a força! Em vós, senhor, eu esperei; não ficarei confundido para sempre!

92. Com os olhos fixos no céu. A ideia do paraíso deve andar sempre viva na nossa cabeça. É exactamente essa ideia que faz com que as pessoas se santifiquem, a mesma que povoou os desertos com ermitões, as casas religiosas com pessoas consagradas, e as terras de missão com missionários fervorosos. Reparem: trata-se duma ideia que produz em nós grandes resultados. Antes de mais, porque nos desapega desta terra. Dizia são José Cafasso: “Eu encaro tudo o que é deste mundo em função do prémio de lá de cima; e se as coisas daqui são feias e me dão pena, isso faz-me logo pensar que no paraíso já não as haverá”. Além disso, esta ideia do céu leva-nos a vencer os obstáculos, os sofrimentos e as tribulações desta vida. Quando o enfado, o tédio e a preguiça nos levariam a passar horas e dias inteiros na escuridão, digamos com são Francisco de Assis: “é tamanho o bem que espero, que todo o sofrimento é um prazer!”. Mas se para nós ainda não chegou a hora de o sofrimento se transformar em prazer, pelo menos que se torne suportável. O sofrimento dura algum tempo, mas o prémio é eterno. Diz são Paulo: “Pois a nossa tribulação momentânea é leve, em relação ao peso extraordinário da glória eterna que ela nos prepara” (2Cor 4, 17).

A ideia do paraíso serve ainda para nos facilitar a aquisição de todas as virtudes e uma correspondência mais fiel e mais generosa à nossa vocação – que é a de sermos santos, grandes santos, o mais santos possível. É portanto uma ideia nobre, a ideia do paraíso, já que nos impele a que sejamos santos. Os anos passam muito depressa; e felizes de nós se, no final da vida, pudermos dizer com são Paulo: “Com bati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé. Agora só me resta a coroa da justiça que o senhor, justo Juiz, me entregará naquele Dia” (2Tm 4, 7-8). Dom Bosco mandou escrever numa porta: “o céu não é para preguiçosos!”. E eu diria que, além de não ter sido feito para preguiçosos, também não foi feito para as pessoas que são de Deus apenas pela metade.

Quando pensardes no céu, não penseis nele em abstracto. Pensai no céu dos missionários e das missionárias que foram fiéis à vocação. Nosso senhor disse: “vou preparar um lugar para vós” (Jo 14, 2). Mas, para isso, é preciso trabalhar… e muito. Pois é! Seria muito interessante conseguir o paraíso aqui e agora, com uma perna às costas! Mas não; trabalhai quarenta, cinquenta anos… e até mais. Esta ideia do paraíso deve ser um desafio para mantermos a cabeça levantada. O nosso salário está lá e é enorme! Pensemos nisso muitas vezes.

93. Um armazém de confiança. A esperança mais pura, mais forte, dá pelo nome de confiança. A confiança é como que a quintessência da esperança. Precisamos dela para dar cobertura à desproporção que existe entre o nosso nada e o sublime da nossa vocação religiosa, sacerdotal e missionária.

Ter alguma confiança? – não chega. Precisamos de um armazém inteiro de confiança se quisermos poder infundi-la nos outros. Sem confiança nada conseguimos fazer. Se desconfiarmos, estamos a ofender a Deus. São José Cafasso dizia que a falta de confiança é o grande pecado dos loucos. Custa tão pouco confiar em Deus! Então por que não havemos de confiar nele?

Todos precisam de confiança. Ela é necessária aos maus para se poderem libertar dos seus vícios e voltar ao caminho da virtude. “Vou levantar-me, vou ter com o meu pai” (Lc 15, 18). É necessária aos tíbios para que se possam sacudir e voltar ao fervor: “o senhor é bom para quem o procura” (Lam 3, 25). Mas eu diria que a confiança é mais precisa aos fervorosos – para não desanimarem frente às exigências de Deus e para não desanimarem perante as repetidas quedas, os defeitos e os pecados que se cometem. Ao fazer revisão de vida, a pessoa debate-se sempre com as mesmas imperfeições, sendo facilmente tentada a concluir: “é tudo inútil, afinal nunca consigo emendar-me!” Mas eu pergunto: “porque é que te encontras sempre com os mesmos defeitos? É porque és fraco! Faz o que puderes, que Deus te há de ajudar!”. Somos mesmo parvos… sempre que nos falta a confiança!

Essencial é colher o lado bom de tudo. São Paulo garante-nos que “... Todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a deus” (Rm 8, 28). Isso mesmo – tudo. Até os pecados, quando nos esforçamos por melhorar. De tudo se pode colher algo de bom, até dos pecados – quando somos humildes.

Confiança e mais confiança. Depois da confissão, pensemos nas virtudes e já não nos pecados. Coragem! Um bocadinho de amor de Deus conserta tudo! Nunca devemos perder a coragem; é preciso recomeçar sempre: “nunc coepi!” – vou começar agora! Eu diria que este deve ser o lema dos nossos institutos. Se tivermos tal confiança, evitaremos o obstáculo da perturbação e dos escrúpulos. Nas perturbações e nas incertezas do espírito, agarremo-nos sempre àquela voz que gera tranquilidade. São José Cafasso dizia que “não devemos pedir perdão a toda a hora. Como acontece entre os amigos íntimos, não se pede desculpa por coisas de nada. O mesmo devemos fazer na nossa relação com Deus. O amor de Deus lava tudo!”. E dizia mais: “senhor, vós bem sabeis que não quero ofender-vos, bem sabeis que vos amo; por isso, se algo me escapar, nem sequer vos quero pedir perdão”.

Precisais deste tipo de confiança num futuro próximo, quando já estiverdes nas missões. Virá o desânimo devido aos vossos erros, devido ao fraco resultado do apostolado, devido à solidão, etc. Eia, haja coragem! “Aqueles que confiam no senhor são como o monte Sião, que não vacila, está firme para sempre” (Sl 124, 1). Se não tiverdes uma grande reserva, um grande depósito de confiança, depois nas missões andareis tristes. Um missionário ou uma missionária sem confiança não pode fazer bem nenhum; pelo contrário, é um tormento para si e para os outros.

O medo e a falta de confiança impedem o avanço nas sendas do espírito. É preciso que tenhais um coração grande, senão nada fareis. Não deveis andar perdidos com mil e uma ninharias; deveis ser desempoeirados. Jesus é o Deus da paz e não da perturbação. Peçamos-lhe paz também para nós mesmos, para não nos deixarmos apanhar pelos escrúpulos, embora devamos ter uma consciência delicada. Mas escrúpulos, isso não! Dúvidas também não! Devemos querer tudo bem claro e limpo. É preciso avançar com aquela tranquilidade de espírito que mantém os escrúpulos e as dúvidas ao largo. É esta a atitude, o espírito que quero em vós!

94. Tudo nas mãos de Deus. A confiança é a esperança amo rosa na Divina Providência que nos acompanha em cada passada da nossa vida. Temos confiança quando nos abandonamos a Deus e colocamos tudo nas suas mãos. Ele é pai e tudo faz para nosso bem. Nunca devemos temer pelo Instituto nem por cada um em particular. Em tudo, mesmo nas coisas mais simples, devemos levantar o coração para Deus e confiar nele apenas, seja qual for o rumo dos acontecimentos. Não devemos basear a nossa confiança nos meios humanos que possuímos, sejam eles o talento, a energia, ou as virtudes – mesmo nos meios que outros possuem. Da nossa parte, façamos sempre o que pudermos, deixando tudo nas mãos de Deus, sem medo. É que ele nunca deixa o trabalho a meio.

95. Confiar na Providência. O evangelho convida-nos a ter grande confiança na Divina Providência: “Portanto, não fiqueis preocupados, dizendo: que vamos comer? Que vamos beber? Que vamos vestir?” (Mt 6, 31). Deus, que garante o alimento aos pardais, com muito mais razão garantirá o sustento aos seus apóstolos. Assumindo que é vontade de Deus que aceitemos muitos jovens e que eles correspondam, ele terá de fazer milagres como os que anda a fazer no Cottolengo, na Pequena Casa da Divina Providência. Lá cuida-se de “pobres corpos”. Aqui tratamos de salvar “pobres almas”.

É preciso ter confiança em Deus, mas é preciso também empenharmo-nos em corresponder. Como é avultado o preço da manutenção de um missionário ou de uma missionária! A minha preocupação não está em que o dinheiro entre: está em que mereçais que entre. Se alguma vez acontecesse faltarem-nos os meios para continuar, eu iria ter com Deus ou com nossa senhora, que lhe segura a bolsa, e diria: “ou os que andam lá nas missões não estão a cumprir o seu dever, ou haverá aqui dentro algum “amalecita” que não está a corresponder”. Eu nunca duvido da Divina Providência. Se não tivesse uma tal confiança, eu perderia a cabeça. Por vezes chega-se à noite e não há dinheiro para pagar uma factura que já atingiu o prazo limite. Pois bem: no dia seguinte o dinheiro chega e paga-se a dívida. Garanto-vos que nunca perdi o sono por causa deste tipo de problemas. Eu não vou à procura de dinheiro, mas também não me envergonharia de sair a pedir esmolas para vos manter ou para manter as missões. Mas às vezes Deus tenta pôr-nos um bocadinho à prova, fazendo-nos esperar. Com esse teste ele quer lembrar-nos de que somos pobres e de que é ele o nosso Patrão. Mas, no fim de contas, se correspondermos, ele sempre nos abençoará.

No evangelho, Jesus proíbe-nos de termos demasiada ansiedade, daquela que nasce da falta de confiança em Deus e do apego exagerado às coisas da terra. Mas a confiança na Divina Providência não exclui que nos empenhemos em pensar, trabalhar e tomar providências quanto ao nosso futuro. Portanto, seja empenho de todos vós colaborar para o bem comum, cuidando das coisas da comunidade e contentando-vos com o necessário. Havereis de merecer mesmo as bênçãos temporais de Deus se viverdes uma vida de fervor: “Pelo contrário, em primeiro lugar buscai o Rei- no de Deus e a sua justiça e Deus vos dará, em acréscimo, todas essas coisas” (Mt 6, 33). Quando, ao rezar o Pai nosso, pedis o pão de cada dia, colocai lá, sim, a intenção de alcançar em primeiro lugar a santa comunhão e a Palavra de Deus; mas depois pedi também o pão material. Porque se Deus providencia com tanta abundância o que é material, o que não fará com o espiritual? Quero mesmo muito que os nossos institutos em geral e todos vós em particular tenhais sempre uma grande confiança em Deus: “quem confia no senhor não ficará desiludido” (sir 32, 24).

A Caridade

96. Amarás o senhor teu Deus. O edifício da nossa santificação aperfeiçoa-se através da caridade, diz santo Agostinho. Deus e o próximo são duas realidades, ou então uma só realidade com duas faces da caridade, ou seja, Deus em si e por si, e o próximo em Deus e por Deus[1].

O amor a Deus consiste menos no sentimento e mais na vontade. Podemos amar muito e não sentir, ou até mesmo sentir alguma repugnância. Podemos sentir muito e até chorar de ternura, mas sem amar. Amar a Deus é o primeiro grande mandamento. Quando o doutor da lei perguntou a Jesus “mestre, qual é o maior mandamento?”, ele respondeu: “Amarás ao senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento” (Mt 22, 36-37). E o evangelista Marcos acrescenta: “e com todas as tuas forças” (mc 12, 30).

A santidade consiste essencialmente na caridade, segundo o que diz são Tomás: “A perfeição da vida cristã consiste, de per si e em substância, na caridade”. A caridade é santidade; amar e tornarmo-nos santos é a mesma coisa. Quando se tem amor, tem-se tudo. As outras virtudes teologais são necessárias porque são inseparáveis da caridade. Não se pode amar sem acreditar e só se espera aquilo que se ama.

São Francisco de Sales confirma isso mesmo, quando dizer: “A verdadeira santidade consiste no amor a Deus; quanto mais uma pessoa ama a Deus mais santa é”. Eis por que são Paulo afirma que a caridade é o “pleno cumprimento da lei” (Rm 13, 10) e “vínculo da perfeição” (Cl 3, 14). E não hesita em afirmar que, sem caridade, tudo o mais é inútil. Mesmo que falássemos a língua dos anjos, ou tivéssemos o dom da profecia e conhecêssemos todos os mistérios; ou mesmo que tivéssemos toda a ciência e uma fé de transportar montanhas; ou se entregássemos o nosso corpo para ser queimado vivo… sem caridade nada disso adiantaria! (cf. 1Cor 13, 1ss).

97. O amor enquanto amizade. Segundo são Tomás de Aqui no, a caridade é uma amizade entre Deus e a pessoa. Deus preferiu-nos a nós desde toda a eternidade: “Amou-me com um amor eterno” (Jr 31,3). Quer dizer que colocou em nós a sua complacência: “A minha delícia é estar entre os filhos dos homens” (Pr 8, 31). Deus gosta efectiva mente de nós; dá-nos graças seguidas para nos sustentarmos no bem e nos tornarmos santos; e se pecarmos, perdoa-nos. Quando andamos aflitos diz-nos: “Vinde   a mim todos os que estais cansados de carregar o peso do vosso fardo e Eu vos darei descanso” (Mt 11, 28). Foi ele quem nos deu tudo o que temos, mesmo sem precisar de nós para nada; ao mesmo tempo revela apreço por cada acto de virtude que lhe oferecemos, transformando-o em inúmeras graças. Também lhe devemos retribuir, repetindo com frequência: “nós vos agradecemos, senhor nosso Deus!”. São Jerónimo ensina-nos que “querer ou não que rer o mesmo que um amigo nosso quer ou não quer é sinal de verdadeira amizade”.

98. Amar a Deus com fervor. Santo Agostinho diz o seguinte: “Criastes-nos para vós e o nosso coração não descansa senão em vós”. Mas como é que se deve amar a Deus? É preciso amá-lo com fervor, com vivacidade. Santa Teresa do menino Jesus, aos vinte e quatro anos, já ardia de amor a Deus. E nós, que somos missionários ou missionárias? Olhem que ele quer o nosso coração por inteiro. Reparai bem: não é que nós não amemos a Deus; o problema é que não o amamos do modo e na recta medida com que ele quer ser amado por nós.

O nosso coração já é tão pequeno que não o podemos dividir. São francisco de sales dizia que se encontrasse uma só fibra no seu coração que não fosse de deus, arrancá-la-ia sem misericórdia. E nós? Amamos efectivamente a deus com todo o coração? Se neste preciso momento Jesus nos fizesse a mesma pergunta que fez a Pedro: “amas-me mais do que estes? (Jo 21, 15) – qual seria a nossa resposta? Eis o exame de consciência que vos proponho. Perguntemo-nos com frequência, sobretudo nós missionários e missionárias, se temos o coração solto, se não está dividido, se é constante no amor. Deus dá-se-nos todo, por inteiro, e depois? – será que a nossa doação é feita com reservas?

Amemos a Deus com toda a alma, ou seja, com toda a nossa vontade, querendo o mesmo que ele quer e na forma como o quer. Demonstremos-lhe o nosso amor evitando o mal e procurando o que é mais perfeito. Muitas vezes andamos perdidos na vida prática, especialmente nas contrariedades ou nos momentos de deserto. O amor voluntarioso resiste a tudo e permanece firme, mesmo na hora da provação. Amar a Deus quando tudo corre às mil maravilhas, ou quando sentimos consolação, é demasiado cómodo! Mas amá-lo quando estamos nas trevas, na escuridão do espírito ou quando o coração parece estar congelado, aí sim, temos verdadeiro amor! Façamos nossas as palavras de são Paulo: “quem nos poderá separar do amor de Cristo? A tribulação, a angústia? [...] Nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso senhor” (Rm 8, 35-39).

Amemos a Deus com todo o entendimento, com todas as forças. Interroguemo-nos então: que pensamentos te mos? E que juízos fazemos? Estarão todos em conformidade com Deus? Amar a Deus com todo o entendimento é fazer tudo com pureza de intenção, ou seja, tudo para ele e nada para nós. E amar a Deus com todas as forças significa amar a Deus o mais possível, sem medo de o amar demais. Muitas vezes é o amor próprio que toma conta do nosso coração. E nós – que somos missionários e missionárias – qual é o nosso procedimento? Se o coração estiver cheio de amor a Deus, decerto que isso se revelará nas nossas vidas. Lembrai-vos disto: quem não arde não poderá incendiar nada nem ninguém.

99. Crescer no amor. Crescemos no amor de Deus através da oração; por isso devemos pedir muito a Deus o dom da caridade que é a rainha de todas as virtudes. Santo Agostinho costumava dizer muitas vezes: “Senhor, fazei que vos ame”. E santo Inácio: “Dai-me, senhor, o vosso amor e a vossa graça e isso me bastará!”. Peçamos também a intervenção de nossa senhora “mãe do Amor formoso” e a daqueles santos e santas que mais se distinguiram no exercício deste amor. Também ao meditarmos, o coração se acende de amor. Meditemos principalmente nos mistérios da Paixão de Jesus. São Francisco de sales dizia que o Cal vário é o anfiteatro de quem ama. Cada frase do Pai-nosso é um acto de amor a Deus. O mesmo se diga de cada frase do Tantum Ergo. Por exemplo, as palavras “que a fé supra as limitações dos sentidos” ajudam-nos a sentir contentamento por não vermos, ou nada vivenciarmos através dos sentidos, e, apesar disso, termos fé na sua Palavra, o que também é uma forma de amar. E ainda “Ao Pai e ao Filho louvor e glória”. São outros tantos actos de amor – que Deus seja louvado, que todos o amem, que por todo o lado seja conhecida a sua grandeza! Tudo isto é amor, amor puro, contanto que façamos brotar do coração estas belas expressões.

Crescemos no amor a Deus através das obras, fazendo obras que agradem a Deus. Como nos ensinou são Gregório Magno, “A prova da caridade está nas acções”. Jesus disse: “se me amais, obedecereis aos meus mandamentos” (Jo 14,15). O termómetro que permite avaliar o nosso amor a Deus são as obras. Portanto não nos contentemos com palavras, passemos à prática. Especialmente nós, que devemos ter “sede de almas”, como Jesus tinha. Mesmo através de actos muito comuns de cada dia se pode ser colaborador do Redentor. Tudo aqui está organizado para que um dia possais fazer o bem. Nas missões devemos ter o coração aberto a todas as fraquezas e, por isso, cheio de amor a Deus. São Francisco Xavier estava repleto deste amor e, como tal, foi um missionário fervoroso. Quem não ama nunca conseguirá fazer bem nenhum. Vós, felizardos, tereis a possibilidade de ser apóstolos na missão, se fordes santos! E sereis santos na medida em que estiverdes cheios de amor a Deus.

Também crescemos no amor a Deus através da pureza de intenção. A pureza de intenção é um acto de amor através do qual estamos unidos a Deus, apenas a ele – e assim todas as nossas acções concorrem para a sua glória: “meu Deus, e meu tudo!”. Quanto mais digna for a finalidade tanto mais perfeita será a nossa acção. Jesus disse: “se o olho (ou seja, a intenção) é são, o corpo inteiro fica iluminado (ou seja, toda a tua acção será boa aos olhos de Deus). Assim, se a luz que existe em ti é escuridão, como será grande a escuridão!” (Mt 6, 22-23). Como seríamos felizes se fizéssemos tudo em função do amor a Deus e apenas a ele! Só ele nos poderá abençoar, consolar, e dar in cremento às nossas obras. É verdade que, todas as manhãs, nós apresentamos a Deus os nossos pensamentos, emoções e acções. Mas isso não chega. É preciso renovar muitas vezes, durante o dia, a nossa recta intenção. Tenhamos o cuidado de purificar os nossos propósitos. Só Deus! Só a Deus toda a honra e toda a glória!

100. Querer o mesmo que Deus quer. É no fazer a vontade de Deus que se encontra a santidade mais perfeita, e também a mais perfeita felicidade. São Basílio declara que o segredo da felicidade, inclusive já neste mundo, está em fazer a vontade de Deus. São Paulo, logo após a conversão, abraçou em pleno a sua vontade: “senhor, que quereis que eu faça?” (Act 22, 10). São José Cafasso explicava assim a união da nossa vontade com a de Deus: “é querer o mesmo que Ele quer; querê-lo da mesma forma, na mesma ocasião e nas mesmas circunstâncias que Ele – e querer tudo isto sem outra razão que não a de ser Deus a querê-lo”. Nosso senhor Jesus Cristo deu-nos exemplo disso, com palavras e com acções. Quando rezava, trabalhava ou pregava, era sempre para fazer a vontade de seu Pai. Já na cruz, depois de ter declarado que tudo estava cumprido, inclinou a cabeça (cf. Jo 19, 30) como que a indicar-nos que até naquele último acto se submetia, fazia a vontade do Pai.

Se uma pessoa se une à vontade de Deus, verá as coisas na mesma óptica que ele. Procuremos a vontade de Deus da mesma forma, tanto nas coisas grandes como nas pequenas, em público ou em privado. Façamos o que temos a fazer sem nada esperar dos outros. Deus é suficiente! Se acontecer alguma desgraça, aceitemo-la sem nos queixarmos, vendo nisso a vontade de Deus. O próprio David, quando Semei lhe atirava pedras e maldições, respondeu assim a Abisaí, que queria ir matá-lo: “Deixai que ele me amaldiçoe. Se foi o Senhor quem o mandou amaldiçoar David, quem poderá pedir-lhe contas?” (2Sm 16, 10). Deus sabe sempre extrair bem do mal. 

Mas tende cuidado, porque muitas vezes o amor próprio leva-nos a considerar vontade de Deus aquilo que não o é. Há muitas coisas que se fazem com a ilusão de serem a vontade de Deus, quando afinal se está perante uma contaminação que é obra da traça do amor-próprio. Andemos de olhos bem levantados para o alto! O que temos em mira deve lá estar: apenas Deus! Não liguemos ao êxito das obras; Deus haverá de premiar segundo o esforço que fizemos e não segundo o êxito – que Deus muitas vezes permite que seja fraco ou até nulo, para nos dar uma lição de humildade. Eis então a importância de fazer boa pontaria! Se lhe entregarmos o princípio duma obra, ele logo ajudará no restante. O que tem feito santos, e nos fará também a nós, será a vontade, a boa vontade, o facto de não pormos reservas quanto ao serviço de Deus.

É preciso que nos examinemos muito objectivamente e nos coloquemos diante de Deus, dizendo-lhe: “senhor, que eu vos conheça a vós e à vossa vontade! – porque o amor próprio tentará escondê-lo de nós. Santa Gertrudes rezava várias vezes ao dia esta jaculatória: “Amabilíssimo Jesus, que não se faça a minha vontade mas sim a vossa”. Experimentemos também nós a dizê-la de vez em quando, sobretudo nas contrariedades. No Pai-nosso nós pedimos que o seu Reino se alargue e, logo depois, que se faça a sua santa vontade, na terra como no céu. Portanto procuremos viver continuamente na vontade de Deus.

É natural que tudo nos custe alguma coisa. Mas, como têm dito os santos, só custa no princípio, porque depois vem a satisfação. Examinemo-nos seriamente, porque é fácil dizermos na hora do fervor “seja feita a vossa vontade!”. Mas, na prática, será que gostamos sempre de fazer em tudo a vontade de deus? É preciso que nos desapeguemos da nossa própria vontade e nos interroguemos em cada acto: será mesmo isto que deus quer de mim? Não faz mal nenhum que tanto aqui como nas missões haja troca de cargos e que quem já mandou volte a obedecer. É assim que nos habituamos a procurar e a fazer, na prática, a vontade de deus, a trabalhar apenas para ele. Digamos a deus o seguinte: aceito tudo, quero tudo sem restrições, e não só em geral mas até nas mais minuciosas circunstâncias. Que nem sequer uma bagatela qualquer, nem uma só palavra, nem uma só acção minha escape à vossa vontade, meu deus! Quem faz sempre a vontade de deus goza de uma paz perfeita, claro, mas também alcança muito mérito!

Há uma coisa que muito me consola – sempre fiz o que Deus queria de mim; e sinto-me feliz por nunca me ter desviado. Quando o Bispo Dom Gastaldi me fez director espiritual do seminário, fui ter com ele e disse-lhe: “sou jovem demais e o meu desejo era ser um dia um humilde pároco; no entanto sou filho da obediência”. Ripostou ele: “Ai tu queres ser pároco? Pois entrego-te a paróquia número um de Turim – o seminário”. Quando me mandou para o santuário da Consolata, eu nem sequer ainda tinha trinta anos... Havia lá um hospício para padres idosos. Perguntei-lhe então: “é mesmo vontade de Deus? Ainda não fiz trinta anos, não tenho a experiência necessária”. Ao que ele respondeu: “ora... Ser jovem é um defeito que se vai corrigindo pouco a pouco. E se errares, por seres jovem, terás tempo para te corrigires”. Ora aí está! É preciso que estejamos sempre onde o amor de Deus nos quiser. Se eu não tivesse aceitado o cargo, Dom Gastaldi teria aceitado o meu “não” mas eu não teria seguido o caminho que Deus tinha traçado para mim.

101. Uma missão confiada a quem muito ama. A caridade para com Deus é-nos necessária de uma forma muito particular, a nós que recebemos a vocação e a missão de a transmitir: “Vim para lançar fogo sobre a Terra; e como gostaria que já se tivesse ateado!” (Lc 12, 49). Como é que conseguiremos transmitir este fogo sagrado se antes não estivermos cheios dele? O senhor Jesus, antes de entregar a Pedro os cuidados do seu rebanho, exigiu-lhe três declarações de amor. Jesus só confia a missão de evangelizar a quem o ama, a quem o ama muito, a quem o ama muitíssimo. Não basta amá-lo de qualquer maneira; é preciso amá-lo em grau superlativo. Só um grande amor fará de nós missionários e missionárias fervorosos; só ele nos levará a suportar de boa mente os sacrifícios da vida apostólica e só ele garantirá resultados com as nossas canseiras. Deus, em tudo o que permite, quer sempre e tão só o nosso bem. Digamos-lhe do fundo da alma: seja feita a vossa vontade! Não basta a conformidade; é preciso uniformidade – com a vontade de Deus. É mais perfeito. O amor tudo vence, tudo supera.

Examinemos então a nossa consciência para vermos se, na prática, nos orientamos por estes princípios. Se assim fizermos, Deus servir-se-á de nós para fazer o bem em grande escala, como fez com são Francisco Xavier. Além disso, se sempre fizermos a vontade de Deus com pureza de intenção, os dias da nossa vida serão de verdadeira plenitude, precisamente porque, de manhã até à noite, será feita uma acumulação contínua de tesouros no céu. No final da nossa vida descobriremos que fizemos muito, mesmo que actualmente nos pareça termos feito pouco.

 

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[1] José Allamano falava da caridade em sentido unitário tal como acontece no evangelho, quer dizer, para com Deus e para com o próximo. Todavia, era seu hábito desenvolver uma doutrina da caridade para com o próximo principalmente no contexto da vida comunitária – coisa que se mantém nestas páginas.