Paixão missionária

121. Até ao sacrifício da própria vida. O ardor apostólico, no dizer de santo Agostinho, é uma consequência do amor; mais, é uma e a mesma coisa. Não se trata, porém, de um amor qualquer, mas de um amor intenso e ardente. O ardor apostólico é a própria marca dum missionário e duma missionária. Não se parte para a missão por capricho ou em turismo, mas unicamente por amor de Deus, que é in separável do amor do próximo. Temos que nos empenhar na busca da glória de Deus colaborando na salvação das almas[1] não só como cristãos, mas também e, mais ainda, como missionários. É este o objectivo da nossa vocação específica. É preciso viver a caridade até ao sacrifício da própria vida. Sem este amor podeis ter o nome, mas nunca o âmago nem a substância do apostolado.

Diz são Dionísio Areopagita que colaborar na salvação das almas é a mais divina das obras divinas. Como diz são Paulo “somos, de facto, colaboradores de Deus” (1Cor 3, 9) Vede bem: disse colaboradores de Deus na salvação da humanidade! É como se Deus tivesse necessidade da nossa ajuda! É a nós que a Igreja confia o grande mandato da evangelização que recebeu do Ressuscitado. Ora isto é o máximo de todas as boas obras.

O fim último da Incarnação, da Redenção e da missão do Espírito santo é a salvação da humanidade. “Por isso diz são Paulo – tudo suporto pelos eleitos, para que também eles alcancem a salvação em Cristo Jesus” (2 Tim 2,19). Sendo o próprio Deus a convocar-nos para esta causa, não havemos nós de atender ao seu apelo? Quem de nós se não considerará privilegiado por ter recebido esta vocação?

“Fui eu que vos escolhi. Eu destinei-vos para irdes e dardes fruto e para que o vosso fruto permaneça” (Jo 15, 16). Esta chamada é um grande dom de Jesus, mas é simultaneamente uma grande responsabilidade da nossa parte. “Ai de mim se eu não anunciar o evangelho!” (1Cor 9,16). Lembrai-vos, todavia, de que não é suficiente anunciar; é preciso empenharmo-nos seriamente em todas as obras e estarmos prontos para qualquer sacrifício adveniente da actividade apostólica, custe o que custar. “Trabalhemos, trabalhemos, exclamava são José Cafasso, que teremos o tempo todo para descansar no paraíso!”. Não tenhamos receio, mesmo que nos pareça que nos estamos a dispersar um pouco na nossa actividade missionária. Temos é que rezar muito, como fazia são Francisco Xavier.

122. É necessário fogo para ser apóstolo. Procurar a paz e a calma nos mosteiros só para fugir à fadiga não é amor de Deus. Este tempo é de trabalho e de sacrifício. Façamos nossas as palavras de são Paulo: “Faço tudo pelo evangelho” (1Cor 9, 23). Tudo, absolutamente tudo! Esgotar-me-ei e sacrificar-me-ei! Ao senhor temos que apresentar trabalho apostólico e não afectos ou intenções.

São Bernardo diz que o apóstolo deve deixar-se incendiar pela caridade, deve completar-se com a sabedoria, encontrar firmeza na constância. O verdadeiro apóstolo é, por tanto, consumido pela caridade, isto é, pela paixão de anunciar o senhor e fazê-lo amar, procurando o bem das pessoas e não o de si próprio. Diz Jesus: “Vim para lançar fogo sobre a Terra; e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lc 12, 49). É preciso fogo para ser apóstolos. Se formos nem frios nem quentes, nunca se conseguirá nada. O homem vive na medida em que consegue ser activo pelo amor de Deus. Pode-se estar em íntima união com Deus e trabalhar, ao mesmo tempo. Se houver amor, também haverá zelo e este zelo fará com que nunca façamos reservas ou hesitações na entrega de nós próprios à missão. Nunca sereis bons missionários ou boas missionárias se não arderdes neste fogo divino.

Além disso, o nosso compromisso apostólico tem que ser completado e aperfeiçoado com o estudo, como já vos disse antes. O saber é indispensável e, portanto, há que estudar a sério. Tendes que vos cultivar e não estar à espera de ficar cultos, como que por milagre. Dizia-me um pároco que tinha lá um estudante que não dava muito para os estudos, mas que para missionário devia dar. Nem pensar! Fique lá com ele. O missionário deve ter capacidade para aprender e ser culto.

Por fim, o verdadeiro apóstolo tem que ser estável na paciência e na constância. É preciso constância e não deixar-se abater quando os resultados não são os esperados. São Bernardo diz que Deus quer de nós o cuidado e o esforço na evangelização; a conversão das pessoas é uma atribuição sua. Vós fazeis bem em suspirar pelo dia em que podereis ir para a missão contanto que tenhais como finalidade última a evangelização. Não vos preocupeis, há lugar e trabalho para todos. Coragem, portanto! O senhor tem sede de almas e compete-vos a vós saciá-la. Ele quer que todos cheguem ao conhecimento da verdade e se salvem, mas quer que isso se faça por vosso intermédio. Tendes que reflectir nesta vontade de Deus. Animai-vos desde já e preparai-vos com estes pensamentos, com a oração, com o estudo e com o trabalho, para a missão. Não descureis nada, pois tudo vos poderá servir um dia.

Durante a adoração eucarística cantamos o salmo 116, que tem um tom tipicamente missionário. É uma espécie de dueto entre os povos e os evangelizadores. No primeiro versículo os povos são convidados a dar glória a Deus: “louvai o senhor, todas as nações! Exaltai-o, todos os povos!”. No segundo versículo temos o reconhecimento da misericórdia do senhor: “Porque o seu amor para connosco não tem limites e a fidelidade do senhor é eterna!”. Todos juntos, eles e nós, unamo-nos com alegria num hino de louvor e de acção de graças a Deus pela chamada de tantos povos à fé.

Mansidão

123. Jesus, nosso modelo. A excelência da mansidão deriva, de modo muito evidente, dos ensinamentos e do exemplo de Jesus: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). É suficiente abrir o evangelho para vermos como Jesus apreciou e praticou a mansidão. Os judeus consideraram-no um endemoninhado e ele limitou-se a responder: “Eu não tenho demónio” (Jo 8, 49). Durante a paixão, manteve-se calado e, quando teve de falar, as suas palavras foram de grande humildade: “se falei mal, mostra o que há de mal. Mas se falei bem, por que me bates?” (Jo 18, 23). Também com os apóstolos teve sempre uma relação de grande mansidão. Em relação a Judas, no Getsémani, disse: “Amigo, a que vieste?” (Mt 26, 50). Segundo são Paulo, a mansidão foi a característica de Jesus: “Exorto-vos pela mansidão e bondade de Cristo” (2Cor 10,1). Também são Pedro põe em relevo esta virtude de Jesus, que “ao ser insultado, não respondia com insultos” (1 Pd 2, 23). O próprio profeta Isaías retrata o messias como um manso cordeiro: “Foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; tal como cordeiro, ele foi levado para o matadouro; como ovelha muda diante do tosquiador, ele não abriu a boca” (Is 53, 7). Jesus apresenta-se-nos como um modelo de mansidão que deve ser imitado. Podeis crer que esta virtude é muito necessária a missionários e missionárias.

124. Indispensável na missão. Quando estiverdes na missão, a mansidão vai ser-vos duma necessidade absoluta. Podereis pensar que já sois suficientemente mansos, mas o que acontecerá quando estiverdes na missão? Alguns só porque são um pouco mais pacatos já se consideram mansos. Não é, porém, suficiente ter um carácter calmo, é preciso ter também a virtude. Ter-se-ão registado, no passado, alguns episódios de violência que afastaram as pessoas. Deixai que vos diga, com grande pena, que reprovo totalmente a atitude de alguns missionários que, contrariamente às minhas recomendações, usaram linguagem desapropriada e chegaram mesmo a bater nos nativos. Chorei ao ter conhecimento desses factos e tenho rezado ao senhor para que ajude as vítimas desses actos a perdoar tais desmandos. Um missionário registava no seu diário que “ainda persiste na população a lembrança da falta de mansidão dum sacerdote”. Não nos deixemos iludir, ao confundirmos ardor apostólico com paixão ou mau feitio. Às vezes, pode parecer-nos que se trata de mera indignação ou ira justificadas, mas não é assim. A experiência demonstra-nos que os missionários só fazem o bem na medida em que conseguem ser mansos. Lembrai-vos sempre da importância que eu dou a esta virtude.

125. Modelar o próprio coração. A mansidão é uma virtude moral indispensável no relacionamento com os outros. O senhor diz: “Felizes os mansos, porque possuirão a Terra” (Mt 5, 5). Isto quer dizer que, além de serem donos do próprio coração, também conquistarão o coração dos outros e, até, o coração do próprio Deus. Pedi ao senhor que vos conceda esta virtude e que vos ajude a compreender a sua importância.

A mansidão contrapõe-se à ira. São Tomás define a mansidão como uma virtude que modera a ira, segundo a recta razão, isto é, marca-lhe os limites. É uma virtude que requer tempo, esforço e violência a si próprio. Para a adquirir é preciso lutar enfrentando as ocasiões, ou pelo menos, não as esquivando. São Basílio considera a mansidão a virtude suprema, isto é, a mais importante, porque implica a relação com os outros.

São Paulo recomenda a Tito: “… nem devem meter-se em brigas, mas antes ser pacíficos e atenciosos no trato para com todos” (Tt 3, 2). Usem de mansidão no falar, no agir e em todas as ocasiões. E isto, tanto quando se está de bom humor como de mau humor, tristes ou alegres. E também para com todos, mesmo em relação às pessoas mais indiscretas. São Paulo continua: “Também nós éramos outrora insensatos…” (Tt, 3, 3), isto é, tínhamos também nós os mesmos defeitos. Se, pela graça de Deus, agora estamos livres deles, saibamos compreender os outros. É este o compromisso sério de vos formardes desde já se quiserdes ser verdadeiramente mansos em todas as ocasiões. Estai sempre alerta nas pequenas provas de agora, para vos treinardes com êxito para situações mais difíceis que eventualmente encontrardes nas missões.

Determinação e constância

126. Cortar a direito, com determinação. Nas montanhas, as estradas fazem muitas curvas e contracurvas; facilitam a subida, mas alongam o caminho. Se se for a corta-mato, far-se-á mais esforço, mas chegar-se-á mais de pressa à meta. Também no caminho da santidade não nos podemos deixar entorpecer, mas cortar a direito com determinação.

Podemos, às vezes, ter a sensação de não estarmos a sentir gosto no que fazemos. Com certeza que, se não ti vermos um pouco de entusiasmo, não chegaremos a ser generosos. Talvez estejamos à espera que o senhor nos faça santos sem a nossa colaboração, mas esta não é uma determinação espiritual! Somos feitos assim: prometemos, mas nem sempre aplicamos a energia necessária em tudo.

A nossa vida tem sentido na medida em que é vivida para nós e para os outros. Muitas vezes vem-nos a ideia de passar uma hora na presença de Jesus sacramentado, mas acabamos por ficar só alguns minutos porque há muito que fazer. Dá-me vontade de rir quando oiço dizer que há tanto que fazer. Quanto mais trabalho há para fazer, mais trabalho se fará; mas há que trabalhar com energia – que é a característica do missionário. Um verdadeiro missionário e uma verdadeira missionária sabem redobrar as próprias forças. Se estiverdes activos, haverá sempre tempo para tudo e ainda sobrará.

127. Valorizar o tempo. Apreciemos e valorizemos o tempo sem nada perder. São Bernardo diz que não há nada mais precioso que o tempo; e nada há que menos se estime que o tempo. Infelizmente não lhe damos o devido valor, não pensamos que cada minuto tem um valor imenso para a eternidade. Os santos tinham em grande conta este dom de Deus.

Pode-se perder tempo de várias maneiras. Fareis bem em reflectir sobre isso. Pode-se perder tempo fazendo o mal, preguiçando ou não o ocupando conforme a vontade de Deus. Tende, portanto, sempre a determinação de aproveitar o tempo. Se assim fizermos, um dia recolheremos os frutos.

São J. B. Cottolengo, como Cónego na igreja do “Cor pus Domini”, poderia ter levado uma vida sossegada: rezar a li turgia das Horas, passear, jantar sem preocupações de maior… E afinal sabeis bem o que ele conseguiu realizar. Também eu poderia viver sossegado: ir ao coro rezar as horas, depois almoçar, ler o jornal, dormir a sesta… e depois… morrer como um parvo! Será esta a vida que queremos viver? Estamos destinados a amar o senhor e a praticar o bem, o melhor possível! Mantenhamo-nos sempre em actividade porque o tempo urge. O senhor concede as suas graças consoante o esforço que cada um se impõe. Na missão podereis perder tempo ou podereis ocupá-lo a fazer o bem. Façamos então bem as coisas, mas com descontracção. Vede se a maneira como actuais corresponde àquilo que de vós se espera.

128. Fortaleza em alto grau. Os missionários precisam da fortaleza em alto grau para poderem fazer frente às forças que se lhes vão opor. Sem um espírito forte é fácil deixar-se levar por inúteis melancolias. A virtude não pode vacilar perante coisas insignificantes, como o calor, o frio, ou um mal-estar passageiro. Se não fordes fortes aqui, também o não sereis na missão. Frequentemente, por uma ninharia já se desiste de trabalhar e se recorre a cuidados ou tratamentos especiais. A esses pequenos caprichos ou indisposições há que reagir para que não se tornem bichos-de-sete-cabeças. Eu não quero que penseis nos problemas futuros de forma lírica como fazem alguns que dizem: “Eu hei de fazer isto, eu hei de fazer aquilo…!”. E, entretanto, não fazem nada. Na comunidade não se devem fazer as coisas por rotina: há que dar um safanão, às vezes, e ser decididos a agir. A finalidade do Instituto é formar missionários heróicos. Não há desgraça maior do que ser relaxados na vida de comunidade. O senhor não protege os preguiçosos. No caminho da perfeição não devemos arrastar-nos com moleza, mas usar o aguilhão!

Acho que o erro maior seja uma pessoa fazer alarde por se ter entregado totalmente ao senhor. É-se virtuoso enquanto vai tudo de feição, mas basta um pequeno contratempo para fazer ruir aquela montanha de santidade! Que cada um diga: “custe o que custar, quero corresponder e ser todo de Deus; e que a minha vontade não seja só uma veleidade, mas uma vontade firme. Já vos referi o que dizia são Francisco de sales: “se descobrisse que no meu coração havia a mais pequena fibra que não fosse para o Senhor, eu arrancá-la-ia, sem piedade!”. Quantas fibras temos no nosso coração! A da soberba, a da gula, a da in veja, a da falta de caridade... Há que arrancá-las todas. A energia é um dom que Deus dá a quem o ama. Então, coragem!

129. Com constância. Na actividade missionária requer-se estabilidade. Vale mais uma pequena coisa feita com constância do que começar um monte de obras grandiosas e depois deixá-las a meio. A constância deve ser uma característica do missionário e da missionária. São Paulo encoraja-nos a correr para chegarmos à meta (1 Cor 9, 24). Nós, às vezes, corremos durante alguns dias, mas depois perdemos o fôlego e cansamo-nos. Ah! É preciso ter um ritmo firme e constante! Ser num dia todo entusiasmo e já no outro todo desalento não pode ser! Quando se sabe que há algo a fazer é preciso ir até ao fim. Há que saber-se controlar, de forma a sermos sempre iguais a nós próprios.

A parábola do grão de mostarda (Mt 13, 31-35) pode aplicar-se às pequenas coisas que têm que se fazer na comunidade: são pequenas, mas têm um valor enorme diante de Deus, porque são feitas por seu amor. Estas pequenas coisas têm que ser feitas com constância. Estamos dispostos a fazer grandes coisas, mas das pequenas facilmente nos cansamos. Hoje fazemos tudo bem….com obediência perfeita… com caridade sentida… mas amanhã… Falta-nos a constância! E no entanto a nossa santificação consiste mesmo em fazer sempre e bem as coisas pequenas. O cardeal Caetano Bisleti era grande admirador do Pe. Cafasso e dizia: “nunca vi um santo assim”. O heroísmo da sua virtude consistia na constância. O heroísmo não está nos milagres, mas na determinação constante, no estar sempre na vanguarda, firmes no querer, sem perder tempo. Há muitos que se querem santificar, mas os que o queiram a sério, constantemente, todos os dias, são muito poucos. Lembrai-vos de que a santidade exige constância, firmeza, vontade. Quem se quiser santificar precisa unicamente de corresponder às graças dia a dia, hora a hora; ser fiel desde manhã até à noite e não ceder aos caprichos ou ao enfado. É preciso servir o senhor com fidelidade constante e decidida. Para se formar um bom missionário ou uma boa missionária é preciso espírito e vontade, constância indefectível e equilíbrio de espírito.

Amor de família

130. Coração grande. O amor a Deus e o amor ao próximo são duas virtudes tão inseparáveis que, a bem dizer, são um mesmo amor. O amor ao próximo deve ser sobrenatural, isto é, partir de Deus e regressar a Deus. Quem ama o próximo ama-o em Deus e por Deus. Daí se conclui que quem ama a Deus, ama necessariamente o próximo. Não há verdadeiro amor ao próximo quando se ama por simpatia, por interesse ou por paixão. O amor ao próximo é um preceito que o senhor designou “seu” e “novo”: “o meu mandamento é este: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15, 12); “Dou-vos um mandamento novo: amai-vos. Assim como Eu vos amei, também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34).

São Gregório magno diz que quem não tem amor para com o próximo não se pode empenhar na evangelização. São Lourenço Justiniano dá-lhe razão dizendo que esse amor é, essencialmente, um serviço de caridade. Por isso como é que poderá alguém comunicar o fogo se o não tem em si mesmo? O missionário e a missionária devem ter um coração grande, cheio de compaixão para com os seus ir mãos. Não foi, porventura, pelo desejo de fazer bem ao próximo e de salvar almas que abraçaram a vida missionária?

 

No sacerdote, em particular, tudo está orientado para o amor ao próximo: o altar sobre o qual se oferece a si mesmo como vítima ao senhor pela remissão dos próprios pecados e pelos dos outros; o sacramento da reconciliação em que exerce uma caridade paciente e compassiva; o mesmo se diga em relação a qualquer outra sua função. O sacerdote, e muito mais o missionário, é o homem da caridade.

“A caridade não pensa mal” (1Cor 13, 5). Não me refiro a pensamentos ou juízos que passam pela mente e que se repelem. Falo dos juízos voluntários, consentidos, especialmente dos juízos temerários. Tantas vezes não reparamos em muitas boas qualidades do próximo e agarramo-nos a um pequeno defeito. Não raramente chegamos a julgar in tenções que só ao próprio Deus compete julgar. “o homem vê as aparências, e Deus vê o coração” (1Sm 16, 7). Mesmo quando notamos algo que nos pareça expressamente mal, devemos desculpar a intenção do autor, que o poderá ter feito por ignorância ou por inadvertência. Nosso senhor avisou-nos: “não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados” (Lc 6, 37). A Imitação de Cristo diz: “olha para ti mesmo e não queiras julgar as acções dos outros”. São Francisco de sales afirmava: “se uma acção tem cem faces, é preciso olhá-la pela face melhor”. Quantas vezes vemos o argueiro no olho do irmão e não nos apercebemos da trave que temos no nosso! “A mesma medida que usardes para os outros será usada para vós” (Lc 6, 38).

Sobretudo não se deve murmurar do próximo. Para se difamar alguém é rápido, mas, depois, como reparar o mal feito? Nunca nos arrependeremos de ter falado de menos, mas sempre nos penitenciaremos por termos falado de mais. Pode dizer-se tanta coisa sem malícia, e depois, há sempre a possibilidade de dar um conselho oportuno, de incutir ânimo, e, sobretudo, de dar bom exemplo e de rezar.

Acontece que se propalam coisas de que se ouviu falar, sem ter a certeza, provocando muitos inconvenientes. é tão fácil isto acontecer! Às vezes, nem sequer há má intenção, mas não há rigor no referir: inventa-se ou exagera-se. quanto prejuízo pode isto causar numa comunidade por um ou dois que não referem as coisas tal como aconteceram! sejamos prudentes nas conversas. nem tudo o que é verdade se deve dizer; e há coisas que não se dizem, pronto! Além disso sejamos caridosos: falta-se tão facilmente à caridade ao falar dos outros!

131. Amar-se como irmãos e irmãs. Falar de caridade entre nós até parece uma afronta a nós próprios. Mas o senhor também insistiu tantas vezes na caridade fraterna. São João não fazia outra coisa senão recomendar a caridade mútua, a pontos de ser chamado o apóstolo da caridade. Nos seus últimos anos de vida, não fazia mais que repetir: “meus filhos, amai-vos uns aos outros”. E aos discípulos, que se queixavam de ouvir sempre a mesma coisa, respondia: “Tudo se resume a isto. Se o fizerdes, cumprireis tudo, porque este é o preceito do senhor”! São João Crisóstomo, referindo-se a este mesmo assunto, comenta: “um mandamento breve, mas grande, importante e conclusivo!”. Também eu, como são João, vos repetirei sempre a mesma coisa para que vos lembreis quando estiverdes na missão.

Todos os fundadores de institutos religiosos recomendavam aos seus filhos e filhas a caridade mútua, sobretudo quando se aproximavam do fim da vida. Assim faço eu também; é esta a última lembrança que deixo aos missionários e missionárias que partem. Se alguém viesse perguntar-nos se aqui há caridade, responderíamos que sim, perfeita caridade! Um dia fiz esta pergunta à superiora das nossas irmãs. Quase lhe pareceu uma afronta… mas tenho sempre receio… quero ter a certeza e poder dizer: “Podem faltar-nos outras virtudes, mas a caridade, não”. Quando eu estiver no céu, mandar-vos-ei raios se me aperceber de que tendes falta de caridade.

Dificuldade em viver juntos sempre as haverá; no entanto é preciso estar atentos a que se não estrague o encanto da caridade. Não presumais de ter este tipo de caridade lá nas missões se ainda a não tiverdes aqui. Se agora vos não enriquecerdes com a verdadeira e perfeita caridade, acabareis por depois dar um testemunho negativo. Quero que haja aqui uma caridade pujante. Não podereis amar o próximo lá longe se desde já não tiverdes caridade para com aqueles que tendes ao vosso lado. Se não houver bons alicerces na caridade fraterna, não se poderão superar as dificuldades em dadas circunstâncias. Então virá a tentação de pedir uma transferência ou que nos tirem da frente aquele ou aquela colega! Qual tirar qual quê! Muda tu e tudo ficará bem. Portanto, devemos fazer um sério exame de consciência sobre a caridade fraterna, sobre a caridade actual, entre nós aqui, não sobre a caridade do futuro ou do próximo que encontraremos um dia.

Uma vez, um pároco foi ter com o nosso Pe. Cafasso a pedir um coadjutor, mas queria um com todos os “erres” e “efes”. Ele ouviu, ouviu e, no fim, depois do rol de aptidões e qualidades que o pároco exigia no futuro coadjutor, respondeu-lhe: “olhe, senhor pároco, assim que sair, no largo que fica ali em frente há um escultor de imagens; vá lá e encomende-lhe um ao seu gosto!”. Que é que vos parece? Tem que se aceitar a pessoa como é! Só porque uma pessoa tem defeitos, não poderá nunca exercer um cargo? Se um missionário pretendesse fazer sempre e só o que lhe apetece, certamente que estaria em contínuo conflito com os confrades. Há que ter um pouco de paciência e de compreensão e ver se a nossa caridade tem as características mencionadas por são Paulo: se não é ambiciosa, se não procura o próprio interesse, etc. Não quero que, entre vós, haja a mínima coisa contra a caridade. É preciso dar-se bem e querer bem a todos; e estar dispostos a dar a vida pelos irmãos e irmãs.

Os primeiros cristãos eram um só coração e uma só alma. Quando se distribuíam os bens que depositavam aos pés dos apóstolos, não havia uma quantia fixa para todos, mas dava-se a cada um conforme a sua necessidade. Procedendo assim, estava garantida a igualdade. Querer aplicar a igualdade em sentido absoluto é um erro.

132. Sinais da caridade fraterna. Os quatro sinais que caracterizam a caridade fraterna são: regozijar-se com o bem e as alegrias dos outros; sofrer com os que sofrem; corrigir os próprios defeitos por amor do próximo e suportar os dos outros; perdoar as ofensas, ou melhor, ir ao encontro de quem nos ofendeu.

“Alegrai-vos com os que se alegram” (Rm 12, 15) será isso o que nós fazemos? Alegramo-nos com o bem dos nossos irmãos e das nossas irmãs? A caridade regozija-se com o bem alheio e diz: “o que interessa é que Deus seja ser vido. Agora se o é por mim ou pelos outros, isso é secundário”. Não é fácil alegrar-se com o êxito dos outros. É a inveja que nos impede de nos regozijarmos com o bem dos outros como se fosse nosso. Devemos alegrar-nos com o bem dos nossos irmãos e irmãs e ficar contentes se alguém, entre nós, consegue um grau maior de santidade ou de sabedoria. Não haja, entre vós, expressões menos abonatórias acerca dos outros e não sejais daqueles que nunca são capazes de dizer uma palavra de louvor a ninguém. Vamos lá! Se algum tem êxito em alguma actividade, não é que devamos entronizá-lo, mas partilhar a sua alegria e uma palavra de congratulação… claro que sim.

“Chorai com os que choram” (Rm 12, 15). A manifestação de apoio não deve ser inoportuna, mas discreta: uma oração, uma pequena atenção, etc. São coisas que, apesar de não darem nas vistas, animam o confrade ou a irmã que se sentirão mais confortados na sua dor. Quando nos dói um dedo, todo o corpo sofre; também na comunidade deve ser assim. Quando alguém tem um problema, todos devem sentir-se solidários. Estar dispostos, se for o caso, a passar a noite à cabeceira de um confrade ou de uma irmã doentes. Da mesma maneira, quando morre algum familiar, façamos como se isso acontecesse a nós próprios. É muito censurável não comungar da dor alheia! Muitas vezes uma boa palavra pode ajudar a aliviar a dor de quem está em situação difícil.

“Levai os fardos uns dos outros” (Gl 6, 2). Procurai eliminar os defeitos que possam afectar terceiros. Esses devem ser sempre os primeiros a ter em conta. Os defeitos podem derivar do nosso temperamento, da nossa maneira de falar ou de agir. Simultaneamente há que ter paciência com os defeitos dos outros, sem esquecer, naturalmente, a correcção fraterna que deve ser sempre feita com tacto e paciência. Quem é que não tem defeitos? A caridade tudo suporta: a desatenção de um, o mau feitio de outro, etc. Com alguma dose de caridade tudo se resolve. Sem caridade a vida comunitária torna-se um inferno. Somos vasos frágeis ao lado uns dos outros que às vezes se incomodam mutuamente. A Imitação de Cristo diz: “se queres viver em paz e concórdia com os teus irmãos é preciso que te corrijas em muitas coisas”. Suportai, com paciência, os de feitos do próximo, tanto físicos como morais ou intelectuais. Se não vos habituardes a esta prática tereis grandes problemas na missão. Dá que pensar quando um missionário, depois de tantas renúncias, tendo deixado a família e a pátria, não seja depois capaz de suportar o próprio confrade!

“Se vos irardes, não pequeis; que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento”. Falar de perdão das ofensas a missionários e missionárias parece um absurdo porque, várias vezes por dia, repetimos: “perdoai-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6, 12). É preciso perdoar as pequenas ofensas - que sempre acontecem. E, muitas vezes, nem é preciso pedir expressamente desculpa. Basta aproximar-se e falar com a pessoa. É muito feio haver amuos na comunidade. Que nunca anoiteça sem que se façam as pazes. Como diz o evangelho:  “se fores até ao altar para levares a tua oferta, e aí te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a oferta aí diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu irmão; depois, volta para apresentar a oferta” (Mt 5, 23-24). O evangelho não diz “se fizeste mal ao teu irmão”, mas “se ele tem alguma coisa contra ti, vai fazer as pazes com ele”. Quem é tão santo que não tenha de vez em quando a sua fraqueza? São coisas que o senhor permite para não nos ensoberbecermos. Para que é que há de uma pessoa ofender-se por tudo e por nada ou guardar rancor? Não tenhamos um coração mesquinho! Não nos deu o senhor um exemplo sublime quando desculpou, junto do pai, os seus próprios algozes? E nós, às vezes, perdemo-nos em ninharias.

Numa carta circular que enviei aos missionários de África, escrevi que mesmo entre os santos podem surgir diferenças de opinião e talvez até alguma teimosia em defendê-las. Por isso lembrei-lhes as palavras de são Paulo “o sol não se ponha sobre a vossa ira” (Ef 4, 26). Quer tenhais razão quer não, reconciliai-vos logo, não deixando passar um dia, uma hora, ou. Mesmo cinco minutos. Só assim as pessoas poderão dizer “Como se amam estes missionários!”. O sinal do perdão está na capacidade de rezar e de desejar o bem a quem nos ofendeu. Como diz são Paulo: “no amor fraterno sede carinhosos uns com os outros” (Rm 12, 10). Gostaria que tivésseis sempre presentes estas palavras que eu próprio estou a repetir para vós.

133. Espírito de “corpo”. O apóstolo Paulo aponta-nos o que está na base da unidade entre os cristãos: “Há um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados a uma só esperança: há um só senhor, uma só fé, um só baptismo.

Há um só Deus e Pai de todos” (Ef 4, 4-6). O que são Pau lo recomenda aos Efésios também nos é dirigido a nós, e, se possível, em maior grau pois que formamos um corpo moral pela união espiritual da vocação religiosa, sacerdotal e missionária. É esta união de todos que garante a verdadeira paz e constitui o principal bem da comunidade.

Não há verdadeira caridade sem verdadeira união entre todos; e onde não há esta união verifica-se a ruína total. Custe o que custar, cultive-se a união. Formamos um só corpo, pelo que também entre os vários membros tem que existir a mesma união. A união faz a força. A união entre os membros duma comunidade faz dela um exército aguerrido e ordenado, pronto para vencer qualquer inimigo ou obstáculo. Pelo contrário, a desunião leva à desagregação dessa comunidade.

Cada instituto tem uma finalidade própria que só se consegue com a cooperação de todos. É assim que procedem os institutos bem organizados: sem se julgarem superiores aos outros, zelam por aquilo que é seu e procuram torná-lo sempre melhor. Também nós, que chegámos depois dos outros, zelemos por aquilo que é nosso e sintamo-nos honrados por pertencer a esta Família a que o senhor nos chamou. É preciso amar a própria comunidade, assim como a própria vocação. Só então caminharemos unidos numa só forma de pensar. Uma comunidade assim unida não pode senão fazer bem. Procurai, portanto, manter a união, que é a essência da caridade!

134. Espírito de família. São Pedro escreveu: “sobretudo conservai entre vós um grande amor” (1Pd 4, 8). A caridade é o distintivo dos verdadeiros discípulos de nosso senhor Jesus Cristo. Nos primórdios do cristianismo dizia-se dos cristãos: “Vede como eles se amam!”. Às vezes, este amor fraterno nem sempre é completo: nem sempre abrange todos os membros da comunidade e nem em todas as circunstâncias. Por vezes há marcas de egoísmo e isso vai contra o espírito de família. Não se pode dizer: “que é que tenho a ver com isso?” Tens, sim senhor, por que não estás só, mas numa caminhada com outros missionários e missionárias que têm por meta a santidade.

Esta caridade não pode limitar-se só à área espiritual, deve incluir também a  área material, isto é, ajudarmo-nos mutuamente nas diversas tarefas. Como é lindo ver uma comunidade ao desafio na entreajuda! Por acaso não se faz assim também nas famílias? Tenhamos um amor prático como entre irmãos e irmãs: ser capazes duma gentileza, e descobrir pequenas iniciativas que só a caridade é capaz de sugerir. Não sejamos como estátuas que não se tocam uma à outra. Todos devemos actuar para o bem da comunidade como membros vivos e concordes. Cada um deve ser capaz de sentir e viver a dor e a alegria do outro. É nas pequenas coisas que demonstramos se temos caridade ou não. Repito, o Instituto não é um colégio, nem um seminário, mas uma família. Sois todos irmãos e tendes que vos preparar para viverdes juntos e depois trabalhardes juntos por toda a vida. Devemos ter um espírito de corpo ao ponto de dar a vida uns pelos outros. “não existe maior amor do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15, 13). Amemo-nos como irmãos: as dores de um são as dores de todos; os interesses de um são os interesses de todos. Se numa comunidade todos procurassem agradar uns aos outros, teríamos uma comunidade ideal. “Vede como é bom, como é agradável os irmãos viverem unidos” (Sl 132, 1). Como é bom estarmos juntos, não como estátuas num museu, ou como prisioneiros numa cadeia, mas como irmãos e irmãs que formam uma família, sob o mesmo tecto!

135. Promoção fraterna [2]. “Irmãos, se alguém for apanhado em alguma falta, vós, que sois espirituais, admoestai

 

Com mansidão essa pessoa” (Gl 6, 1). A promoção fraterna faz parte do espírito de família. Devemos sentir-nos agradecidos por nos corrigirem devendo também nós usar essa mesma caridade em relação aos outros. Às vezes todos reparam num defeito nosso e só nós é que não damos conta. Uma palavra amiga dum irmão ou duma irmã seria tão boa ajuda! Não julguemos, mas quando um defeito é notório, devemos corrigir-nos. Ou não será isto um dever da caridade?

A promoção fraterna deve ser bem feita, de forma discreta e com bons modos, em tempo oportuno, mas não se pode deixar de fazer, nunca esquecendo que deve sempre inspirar-se na caridade. Perguntará alguém se isto não está em contradição com a minha recomendação de que devemos suportar-nos mutuamente. De forma alguma! Imitemos as virtudes e corrijamos os defeitos. Quem é chamado à atenção considere a correcção como se viesse de Deus. A nossa comunidade tem que ser fraterna e atenciosa, empenhada em corrigir os defeitos com espírito de delicadeza e caridade.

Amor à cruz e espírito de sacrifício

136. Mais ainda como missionários e missionárias. Já perto do fim da sua vida terrena, Jesus dizia aos apóstolos: “Vede: subimos agora a Jerusalém e vai cumprir-se tudo o que foi escrito pelos profetas acerca do Filho do Homem vai ser escarnecido, maltratado e coberto de escarros; e, depois de o açoitarem, vão dar-lhe a morte”. E continua o evangelho: “Eles, porém, nada disto entenderam”. E, como se não se tivesse explicado bem, o evangelista conclui: “Aquela linguagem era incompreensível para eles, e não entendiam o que lhes dizia” (Lc 18, 31-34). uma grande lição para nós que apesar de tantas meditações sobre a Paixão de nosso senhor Jesus Cristo, não lhe conseguimos ainda alcançar o sentido. Amemos e abracemos o sacrifício, seja como pecadores, seja como cristãos; e tanto mais ainda como missionários e missionárias.

Pedi ao senhor o amor ao sofrimento. Nosso senhor disse a Ananias acerca de são Paulo: “Eu vou mostrar a Saulo quanto ele deve sofrer por causa do meu nome” (Act 9, 16). Não prometeu doçuras, mas sim sofrimento. E fez o mesmo com os apóstolos, anunciando-lhes quanto teriam que sofrer por seu amor. Agora diz-nos a mesma coisa. Habituemo-nos, portanto, desde já, às pequenas renúncias para nos prepararmos para o que virá depois. Imploremos do senhor a luz e a graça para podermos compreender os seus sofrimentos e para podermos também ser generosos na aceitação do que nos tocará sofrer. Sem espírito de sacrifício não podereis ser santos missionários e missionárias nem obtereis as graças da consolação que vos fortalecerão, correndo o risco dum ministério estéril. Quando enveredastes pela vida missionária talvez tivésseis sentido um desejo de martírio. Mas isso não passará dum arrebatamento se, depois, na prática, vos acobardais perante o sacrifício. Lutemos contra nós mesmos e não pretendamos que o senhor nos faça santos sem a nossa colaboração.

O senhor deu-nos o exemplo, sofrendo na alma e no corpo, como afirma a Carta aos Hebreus: “Em troca da alegria que lhe era proposta, Ele submeteu-se à cruz, desprezando a vergonha” (Hb 12, 2). Todos os santos caminharam segundo os passos de Jesus, a começar por são Paulo, que dizia: “sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo” (1 Cor 11, 1). Quantos padecimentos físicos e morais não teve que suportar o grande apóstolo: flagelações, apedrejamentos, naufrágios! “E isto para não contar o resto: a minha preocupação quotidiana, a atenção que tenho por todas as Igrejas” (2 Cor 11,28). O exemplo dos apóstolos é uma acusação ao nosso escasso amor ao sofrimento, à facilidade com que nos deixamos abater na actividade apostólica. Amamos a cruz, mas só poeticamente. É muito fácil quando tudo são rosas, mas quando a nossa virtude é posta à prova logo esmorecemos. No entanto é nessa altura que devemos mostrar a nossa determinação. Amar a cruz é muito bonito, mas há que começar, desde já, a pedir a graça de a carregar.

É fundamental estardes convencidos da necessidade do sacrifício para serdes verdadeiros discípulos do senhor. Tende sempre presente que sois apóstolos e que as almas se salvam com o sacrifício. Na vida apostólica há muitas rosas, mas também muitos espinhos, tanto no que diz respeito ao corpo como no que diz respeito à alma. Alguns pensam no ideal missionário como sendo só poesia, esquecendo-se de que as almas se salvam pela cruz, como fez o senhor. A graça de deus nunca faltará e, se formos generosos em suportar as provas por que temos que passar, poderemos repetir com são paulo: “estou cheio de consolação, transbordando de alegria no meio de todas as nossas tribulações” (2cor 7, 4). É por isso que as tribulações não só não nos devem bloquear, mas, antes, nos devem entusiasmar no exercício do apostolado.

Formemo-nos no verdadeiro espírito de sacrifício, mesmo no sacrifício espiritual. Apreciar o sofrimento sem necessidade de queixumes ou de o propalar aos quatro ventos. Quero que sejais fortes! O senhor não faltará com a sua bênção. Só assim um missionário, revestido de boa vontade e de espírito de sacrifício, poderá fazer o seu trabalho. E deve-se manter este espírito desde a manhã até à noite. Fazer tudo por amor de Deus, saber renunciar às próprias ideias, carregar dia a dia com a própria cruz… tudo isto é um martírio lento, prolongado. O martírio cruento talvez dê mais nas vistas, mas este torna-se ainda mais valioso.

137. A renúncia não é coisa do passado. Um missionário ou uma missionária que não cultivem o espírito de renúncia não poderão fazer muito. Como diz são Paulo: “os atletas abstêm-se de tudo” (1 Cor 9, 25). Nos dias que correm não se quer ouvir falar de mortificações corporais. Diz-se que é suficiente mortificar o espírito, pois as pessoas já não têm a mesma resistência de outros tempos… que isso era para os eremitas, etc.! Vós não pensareis assim, com certeza!

É necessária a mortificação do espírito? Claro, quem o negaria? Em primeiro lugar vem sempre a mortificação espiritual. Mas deve andar-lhe sempre conjunta a mortificação corporal. Será mesmo que este tipo de mortificação já não é adequado à mais fraca constituição das pessoas dos nossos dias? Antes de mais não devemos exagerar a nossa fraqueza física. Há um sem número de pequenas renúncias que se podem fazer sem prejuízo da própria saúde; antes, algumas até a favorecem. São mesmo só para eremitas? Nada disso: mesmo no tempo presente, há muita gente que se sacrifica, jejua, faz vigílias e se penitencia!

Portanto, tão necessária é a mortificação corporal como a espiritual. É o que se conclui da palavra de Deus, assim como do exemplo dos santos. O senhor Jesus jejuou durante quarenta dias (cf. Mt 4, 1-11). São Paulo castigava o próprio corpo para o ter em sujeição (cf. 1Cor 9, 25). São Vicente de Paulo dizia: “quem desdenha das mortificações exteriores demonstra que não é pessoa mortificada, nem exterior nem interiormente”. Recordai-vos destas coisas especialmente em missão. Para se poderem alcançar graças é preciso haver oração e mortificação. Eu sempre vos hei de falar da mortificação interna; mas lembrai-vos de que também a mortificação externa é necessária.

138. Pequenas renúncias de que ninguém se apercebe. Não pretendo que façais grandes penitências, como fizeram alguns santos, apesar de serem óptima coisa. Podeis, no entanto, fazer pequenas renúncias quotidianas, treinando-vos assim para sacrifícios maiores, até mesmo heróicos, que a vida apostólica venha a proporcionar. Quem não aprende a dominar-se e a solidificar a virtude em si próprio nunca será uma pessoa decidida e forte. E quem quiser sacrificar-se deve dar atenção às coisas pequenas. O senhor aprecia as pequenas coisas, feitas de modo perseverante. Deveis desde já controlar os sentidos: a vista, não pretendendo ver tudo, mesmo que se trate de coisas lícitas; o ou vido, evitando a curiosidade; o gosto, comendo com moderação e contentando-se com aquilo que a comunidade pode oferecer; o tacto, respeitando o próprio corpo que foi santificado pelo baptismo, pelo crisma e pela eucaristia. Também o levantar da cama deve ser pronto e decidido. Parece que este gesto não tem grande importância, mas eu sou do parecer que se uma pessoa for sempre fiel a esta prática, certamente terá bom espírito. É tão feio conceder o primeiro acto dum novo dia à preguiça! Deus aprecia este sacrifício matutino, que atrai bênçãos sobre todos os actos do dia. Procedei assim e vereis que conseguireis ser sempre cada vez mais generosos na missão. O grande obstáculo à santidade reside na falta de constância nestes pequenos gestos.

Refreemos muito especialmente a língua. Há tempo para falar e tempo para estar calado. São Tiago, na sua carta – tão linda! – de entre o mais, alarga-se no discurso sobre o bem e o mal que se pode fazer com a língua. É ela um pequeno membro – diz o apóstolo – mas gloria-se de grandes coisas. Com a língua, podemos, de facto, falar bem, rezar, cantar louvores ao senhor. Assim como podemos também dizer coisas desagradáveis, críticas, murmurações, calúnias; palavras contra a verdade, palavras de vai dade, de soberba. (cf. Tg 3, 5). Teríeis a coragem de colocar todas as vossas palavras nos lábios de Jesus? Quanta leviandade e quantos defeitos da palavra derivam da falta de controlo da língua! E quem conseguirá reparar os prejuízos provocados pelo uso indevido da língua? Como é tão fácil pecar com a língua! Como diz são Tiago: “Aquele que não peca no falar é homem perfeito” (Tg 3, 2). E Ben Sirá diz: “Feliz… aquele que não peca por palavras” (sir 25, 8).

Não me venham dizer: “Pronto! Agora vamos todos andar calados e deixar de falar por completo!”. Bom: se houvésseis de ficar sempre fechados aqui entre estas quatro paredes, eu concordaria. Mas vós não sois nem Cartuxos nem Trapistas. Não se trata de andar sempre calado, é apenas reflectir antes de falar. Santo Ambrósio interroga-se desta forma: “é conveniente ficar sempre mudo?” – para logo responder que não. E dá uma boa regra para bem falarmos, que é: “ou te calas ou, pelo menos, diz coisas melhores que o silêncio”. Ensina são Francisco de sales, elaborando sobre essa mesma ideia: “o nosso falar seja pouco e bom, pouco e suave; pouco e simples, pouco e caridoso, pouco e afável”. Há que falar sempre com moderação, com prudência, com caridade e com piedade.

Paciência

139. Indispensável na missão. A paciência é necessária para todos, mas é especialmente indispensável em missionários e missionárias. São Paulo, falando das virtudes necessárias para o apóstolo, coloca em primeiro lugar a paciência entendida como firmeza: “Em tudo nos recomendamos como ministros de Deus: pela grande perseverança nas tribulações, necessidades, angústias, açoites, prisões, desordens, fadigas, vigílias e jejuns” (2Cor 6, 4-5). Por aqui podereis ver a importância e a necessidade da paciência. É a experiência que no-lo prova: a paciência, em maior ou menor grau, no missionário e na missionária, condiciona muito a conversão das pessoas. Nunca teremos paciência de mais. Todos precisamos de a ter porque todos temos de a exercer, por assim dizer, a cada minuto.

A excelência desta virtude emerge da palavra de Deus. O senhor, na Paixão, fez prova de máxima paciência ao suportar todo o tipo de sofrimentos, tendo a máxima mansidão para com Judas, para com os seus algozes e para com os que o crucificaram. Diz são Tiago: “mas é preciso que a perseverança complete a sua obra em vós, para que sejais homens completos e autênticos” (Tg 1, 4). São Cipriano diz: “A paciência torna-nos agradáveis ao senhor; acalma a ira; trava a língua; governa a mente; mantém a paz; estabelece a disciplina; e quebra o ímpeto da paixão”. A paciência está na base de todas as outras virtudes – que sem ela se desmoronam.

A paciência é a virtude que modera a tristeza proveniente dos males presentes; modera os movimentos da alma para que esta não se deixe aviltar pelas adversidades, mas, antes, as possa enfrentar com toda a tranquilidade. Há dois tipos de males que nos podem afligir nesta vida: os males exteriores e os males interiores. São males exteriores: a perda de bens ou de familiares, as maldades que os outros nos fazem, o desprezo e as doenças ou outras preocupações que nos possam afligir. Os males interiores são: o tédio, o desânimo, a aridez do espírito, os desgostos e os escrúpulos. Todos estes males contribuem para a tristeza do coração e exigem paciência para os suportar. O próprio Jesus passou por este males no Getsémani, mas não se deixou vencer. Habituemo-nos a passar por cima de tantas misérias e não deixemos que o nosso coração se abata. Um olhar para o Crucificado conserta tudo.

140. Sempre a aumentar. No exercício da paciência há diversos patamares. O primeiro é o dos que suportam os males sem revolta, apesar de não conseguirem sempre conter as suas queixas; procuram consolações e querem ser confortados nos seus sofrimentos. Isto pode chamar-se virtude contanto que as contrariedades sejam aceites por amor de Deus, apesar de ser o mínimo que se possa fazer. Um segundo patamar é o dos que suportam tudo com plena resignação à vontade de Deus, sem queixumes e sem procurar consolações. O terceiro patamar é o dos que suportam os males não só com resignação mas até com alegria. O seu amor é tal que quase nem sentem os males. Era o que se passava com os mártires: que tinham tal desejo de se conformar com Jesus crucificado que até venciam o sofrimento.

É este o grau de paciência que Jesus nos propõe e para o qual devemos tender. Não digo que se deva encontrar prazer no sofrimento em si próprio, mas que devemos ter prazer nos nossos males porque assim nos assemelhamos a Jesus sofredor e cooperamos mais eficazmente para a salvação das almas. Será que os apóstolos, arrastados aos tribunais e açoitados, não saíam de lá felizes por terem sido ultrajados por causa do nome de Jesus? (cf. Act 5, 41). E são Paulo? Para ele não havia maior glória que a cruz do Senhor Jesus Cristo (cf. Gl 6, 14). Também são Pedro exortava os cristãos nestes termos: “Pelo contrário, alegrai-vos por participardes dos sofrimentos de Cristo para que também vos alegreis e exulteis ao revelar-se a sua glória” (1Pd 4,13).

Então comecemos, pelo menos, por alcançar o segundo patamar que é o de não nos queixarmos nem procurarmos a comiseração dos outros. Isto tanto no que se refere aos males morais como aos espirituais. Não podemos exigir que as coisas corram sempre como é do nosso agrado. Temos que nos revestir de paciência e esforçar-nos por atingir o terceiro patamar – o de aceitar com alegria os males que nos aconteçam. Sem paciência não há paz de coração nem na comunidade nem no mundo.

Há muitas maneiras de conseguir a paciência: pedi-la ao senhor na oração; não desanimarmos à mais pequena dificuldade para que, quando surgirem as grandes, não nos deixemos abater; habituarmo-nos a considerar os males como permitidos por Deus e não como provenientes da malícia humana; aceitar a cruz não só das mãos do senhor, mas do seu próprio amor; nas provações, contemplarmos o crucifixo, visto que nele encontraremos a chave que tudo explica; praticar frequentemente acções de conformidade com a vontade de Deus; e ter sempre no pensamento o paraíso que nos espera.

É durante o tempo de formação que vos deveis treinar na paciência, para a poderdes pôr em prática depois na vossa vida de missão. Às vezes a paciência é tão pouca! Somos como um vidrinho, que à mais leve pancada se estilhaça. Ultrapassemos, portanto, estas mesquinhices e enfrentemos a vida com energia! Se um missionário ou uma missionária se deixar abater e não conseguir reagir, o que é que poderá fazer na missão? Os contratempos que nos acontecem são um sinal de que deus nos quer bem. Nunca se chegará a compreender o mistério da tribulação! Empenhemo-nos no exercício desta virtude e assim conseguiremos a paz para nós e para os outros.

Humildade

141. Jesus, modelo da verdadeira humildade. O senhor Jesus exclamou: “Carregai a minha carga e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Santo Agostinho ao comentar estas palavras de Jesus afirma que ele não nos convida a imitá-lo na criação do mundo, na realização de milagres ou em fazer ressuscitar mor tos, mas em sermos mansos e humildes de coração. É nisto que ele quer ser imitado. Se nos pedisse para o imitarmos na sua extrema pobreza, ou na sua total imolação até à morte na cruz, poderíamos desculpar-nos com a nossa fraqueza. Imitá-lo, porém, na sua humildade é coisa que está acessível a todos, visto ser uma condição própria das limitações humanas, ao passo que para Jesus, que era divino, foi um aniquilamento. Ele foi o modelo da verdadeira humildade. Com razão os santos Padres chamam à humildade “a virtude de Cristo”.

Demos uma vista de olhos ao evangelho: toda a vida de Jesus foi um exemplo de humildade. Jesus declarava que a sua doutrina não era sua, mas do Pai: “A minha doutrina não vem de mim, mas d’Aquele que me enviou” (Jo 7, 16). Quando alguém lhe chamou de “bom mestre”, ele respondeu: “só Deus é bom e ninguém mais” (Mc 10, 18). Mas não tinha, porventura, o Pai dito: “Este é meu Filho amado, que muito me agrada”? (Mt 3, 17). Apesar de ser o senhor do universo, Jesus não hesitou fazer-se servo dos apóstolos ao ponto de se rebaixar a lavar-lhes os pés. Mas o grande prodígio da sua humildade foi a sua morte com todas as ignomínias que a acompanharam e às quais ele se sujeitou completamente: “Humilhou-se a si mesmo tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz!” (Fl 2,8).

Jesus foi humilde por sua espontânea vontade. Apesar de poder livrar-se das humilhações, aceitou-as na totalidade. Por isso dele se diz: “Foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca” (Is 53,7). Paulo nem diz que foi humilhado, mas sim que ele próprio se humilhou: “Humilhou-se a si mesmo” (Fil 2,8).

142. Ser humilde por não haver outra saída. Nós temos que ser humildes porque a nossa natureza frágil e os nossos defeitos nos lembram continuamente o que somos. Ser humildes por palavras é fácil: podemos sê-lo, mesmo tendo a mais refinada soberba. Mais difícil é saber-se manter humilde nas acções que nos honram. Por uma questão de prudência humana, até temos um certo cuidado em não nos fazermos conhecer como realmente somos, mas cá por dentro gostamos tanto da glória humana que por vezes nos mostramos desligados até mesmo dos justos louvores que nos fazem… não foi esta, porém, a humildade de Jesus. Ele amou verdadeiramente a humildade.

Porque é que insisto tanto na humildade? – direis vós. A resposta é muito simples: é porque nenhuma virtude, por mais esplêndida que seja, consegue ser sólida se não for acompanhada pela humildade. Santo Agostinho, interrogado certa vez sobre qual fosse a primeira virtude, respondeu: “a primeira é a humildade, a segunda é a humildade e a terceira é a humildade”. São Jerónimo chama-lhe de “virtude dos cristãos” porque ela entra em todas as outras virtudes e sem a humildade até as coisas boas perdem a bondade.

A humildade é necessária para rezar bem. Só as orações dos humildes, de facto, podem chegar ao céu, enquanto que as dos soberbos, não. Vede a oração do fariseu (cf. Lc 18, 10-14). O senhor agrada-se da oração feita com humildade. Da mesma maneira, sem humildade também não há fé. Como é que o soberbo poderá submeter a própria inteligência e razão à autoridade da Igreja? O soberbo não crê. Sem humildade também não há esperança. Como é que alguém que confia só em si próprio pode pôr toda a sua confiança em Deus? E que dizer, finalmente da caridade? O soberbo ama-se a si próprio e não ao senhor. Santo Agostinho diz: “onde há humildade, há caridade”. Pelo contrário, onde não houver humildade, também não poderá haver caridade.

143. Servir com humildade. A humildade é indispensável na nossa situação de missionários e de missionárias, que é uma situação de serviço. Para sermos servidores temos que ser humildes. Jesus dizia aos apóstolos: “Pelo contrário, o maior entre vós seja como o mais novo; e quem governa seja como aquele que serve” (Lc 22, 26). Também nossa senhora, ao anúncio do anjo, respondeu: “Eis a escrava do Senhor!” (Lc 1, 38). Por isso é que o nosso ministério é definido por santo Isidro como “o ministério da humildade”.

A virtude da humildade é tão necessária aos missionários e às missionárias que, sem ela, não se pode fazer nada de bom. Quereis realmente (e deveis querê-lo) ser santos, o mais santo possível? Empenhai-vos na humildade. A humildade é que vos ajudará a exercer todas as outras virtudes. Se todos têm de ser humildes, vós deveis sê-lo mais que ninguém.

Os missionários e as missionárias da Consolata têm de viver com espírito vivíssimo de fé, de sacrifício, de mútua caridade fraterna, mas, acima de tudo, com espírito de profundíssima humildade. Convençamo-nos da necessidade desta virtude e não tenhamos medo de nos rebaixarmos demais. Se formos humildes, mesmo enquanto Instituto, o senhor nos elevará. Quero que o nosso lema seja como diz o salmista: “livrá-lo-ei porque a mim se apegou” (Sl 90, 14).

144. A humildade é a verdade. A humildade é o conhecimento pleno daquilo que nós próprios somos. Não quer isto dizer que, por sermos humildes, tenhamos que pensar de nós próprios pior do que o que somos, porque a humildade, sendo uma virtude, tem que se basear não na falsidade, mas na verdade. A humildade também não consiste em certas locuções do tipo “não presto para nada” ou outras semelhantes. Muitas vezes dizem-se estas expressões a contar que os outros reajam com louvores. A virtude foge sempre da falsidade. Quando executas uma tarefa qual quer, fá-lo o melhor que puderes. Se realmente temos aptidões devemos reconhecê-las e dar graças a Deus por no-las ter concedido. A humildade é simples. Deve radicar-se no conhecimento verdadeiro e recto do nosso ser e dos nossos méritos, seja no âmbito da natureza, seja no âmbito da graça.

Olhemos bem para nós próprios. O que é que temos no âmbito da natureza? Pó e cinza. E o que é que temos de nosso? Como foi Deus quem nos deu o ser, quem nos conserva, assim também foi deus quem nos concedeu os dons e as prerrogativas que embelezam a nossa pessoa. O corpo, a alma, a saúde de que gozamos, a beleza, o engenho de que nos orgulhamos, tudo procede de deus. “que tens tu que não tenhas recebido de Deus? E se o recebeste porque é que te orgulhas como se o não tivesses recebido”? (2 cor 4,7). Poderemos fazer as mesmas considerações em relação ao âmbito da graça. Se somos cristãos, é por graça de deus. E o termos sido chamados para esta casa será porventura mérito nosso? De forma alguma! Foi o senhor quem nos guiou. A própria boa vontade é um dom de deus. Na ordem sobrenatural tudo procede do senhor. Assim compreendemos como os santos, apesar de operarem tantas maravilhas, se mantiveram sempre tão humildes. São Paulo dizia: “jesus cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro”. (1Tim 1, 15). A humildade tem que se pedir a deus todos os dias para entrarmos em nós próprios e reconhecermos aquilo que somos e, depois darmos graças pela nossa nulidade.

145. A humildade não é infusa. Normalmente a humildade não nos é dada: conseguimo-la com a nossa colaboração, através da repetição dos actos. Cada vez que aflora um pensamento de soberba, digamos logo: “só Deus, só Deus!”. Os actos internos ajudam-nos muito, mas não são suficientes. São necessários, também, os externos, que mais não são do que manifestações da humildade interior. São Tomás diz que da predisposição interior à humildade surgem sinais externos que se manifestam por palavras e por gestos. Não nos louvemos; evitemos também censurarmo-nos; quando formos repreendidos ou corrigidos, não comecemos a desculpar-nos; não nos ponhamos em evidência; nunca façamos nada com soberba; e aceitemos de boa mente as humilhações que o senhor nos manda. Só assim conseguiremos ser humildes; e só sendo humildes é que seremos santos.

Para adquirir o espírito de humildade, não podemos estar muito agarrados a nós próprios, às nossas ideias, à nossa sabedoria, aos nossos dons, à consideração dos outros, pois tudo isso não passa de pretextos da soberba. Se nos convencêssemos de que temos um cérebro pequeno e a nossa inteligência é limitada, talvez conseguíssemos aperceber-nos de que nem sempre temos razão e mais facilmente seríamos condescendentes com os outros, principalmente quando são mais experientes do que nós. Lembrai-vos, portanto, de pedir ao senhor a humildade, de meditar sobre as vossas fraquezas e aceitar as humilhações que o senhor vos envia.

Além disso cuidemos também do nosso bom-nome, como sugere Ben Sirá: “Cuida bem do teu próprio nome pois ele te acompanhará mais do que mil tesouros preciosos” (Sir 41, 12). Ou como dizia Jesus: “Assim também: que a vossa luz brilhe diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que fazeis e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16). Devemos actuar sempre com finalidade espiritual, não para ser estimados, mas para agradar a Deus. Às vezes o nosso amor próprio ilude-nos fazendo-nos ver a glória de Deus ou o bem das almas onde não há mais do que a glória do próprio eu. Os títulos, os cargos, etc. Não passam de vaidade, não valem nada. O senhor não se impressiona com os títulos.

Há já quarenta anos que exerço a função de superior e já é hora de passar o testemunho. Renunciaria de muito boa vontade ao cargo de Reitor do santuário de Nª Sª da Consolata, ao Centro de Formação do Clero, ao canonicato… não digo que também vos queira deixar a vós, mas… A este propósito, volto a um assunto de que já vos quis falar outras vezes. Vós beijais-me sempre a mão e eu nunca me opus. A partir de agora, porém, não quero que o continueis a fazer. Sei que me quereis bem, mas acho que é demais. Não o façais mais, beijar-mas-eis quando eu morrer, se quiserdes. Agradeço as vossas manifestações de respeito mas não quero que sejam demasiado abundantes. Além disso, também não quero voltar a ouvir o superlativo “venerandíssimo”. Na revista “Da Casa madre” contei, pelo menos, oito. É exagerado. O Pe. Cafasso ainda é só venerável e eu hei de ser já venerandíssimo? Só Deus saberá se o sou. Não volteis a fazê-lo, portanto, pois acho que é um exagero. À imitação de maria santíssima, não nos atribuamos nada mais do que as nossas fraquezas e demos a Deus toda a honra e toda a glória (cf. Lc 1, 47-48).

 

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[1] José Allamano usava a expressão “salvar almas” para se referir à tarefa es- pecífica dum apóstolo. sem querermos atraiçoar o seu pensamento, tal expressão foi aqui modificada por – “colaborar na salvação das almas” – em conformidade com o pensamento de são Paulo na Carta aos Coríntios (1Cor 3, 9), que é a refe rên cia usada por José Allamano, onde os apóstolos são apresentados como “cola boradores de Deus” na obra da salvação.

[2] José Allamano servia-se habitualmente da expressão “correcção fraterna”. Porém, aqui, sem modificar o conteúdo original dessa expressão, preferimos servir-nos da linguagem da psicologia actual, que melhor exprime tal prática com o termo “promoção fraterna”.