Vida consagrada
102. Um novo baptismo. Segundo as Constituições, vós estais na Congregação para serdes, em primeiro lugar, religiosos bons e santos, e só depois missionários. Tende bem em mente que os nossos Institutos são institutos religiosos e missionários. A vida consagrada no estado religioso consiste num estado de perfeição – não porque se seja já perfeito quando nela se entra, mas porque aqueles que por ela enveredam se esforçam continuamente por alcançar a perfeição. É como que um novo baptismo, um holocausto superior a qualquer sacrifício, pois nos sacrifícios damos ao senhor coisas exteriores enquanto que aqui damo-nos a nós mesmos. É como que uma oferta contínua, a fogo lento, em que sacrificamos os nossos próprios bens, as nossas comodidades, a nossa vontade.
Todos os cristãos são chamados à perfeição das virtudes, porque a todos o senhor disse: “sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai que está no Céu” (Mt 5, 48). Esta vocação à santidade consiste essencialmente no amor a Deus e ao próximo. Para os consagrados, tal vocação tende à perfeição não somente nos mandamentos mas também nos conselhos evangélicos, segundo a possibilidade de cada um e a graça que Deus dá.
103. Em liberdade. Todas as congregações religiosas se obrigam, pelo voto, aos três conselhos de pobreza, castidade e obediência. Com estes votos a vontade fica mais se gura e tem-se mais mérito dando-se a Deus não só o que se faz mas também a própria liberdade, como diz são Tomás de Aquino. Santo Anselmo acrescenta que, com os votos, não só se oferecem ao senhor os frutos mas a própria árvore. Os votos, porém, não inibem a nossa liberdade: direi que a aumentam na medida em que nos tornam mais senhores de nós próprios, menos condicionados pelas paixões. Santo Agostinho exclama: “Ó feliz necessidade que nos obriga a fazer sempre aquilo que é melhor!”
Todas as Congregações têm por hábito renovar os votos anualmente para aumentar o fervor – para que os professos os recordem e se confirmem neles. Que os votos não vos assustem. Estejamos sossegados como antes, ou melhor, mais ainda do que antes, porque, além de serem um segundo baptismo, os votos marcam o princípio de uma nova caminhada para a perfeição, para a santidade. É muito agradável ao senhor esta oferta da totalidade de nós próprios; ele inunda-nos com as suas graças, que nos tornam mais fortes, mais corajosos, mais confiantes. Entreguemo-nos totalmente a ele. Só assim alcançaremos a verdadeira santidade. Não vos esqueçais de que a profissão religiosa não é um contrato mas uma vocação. Deus não aprecia contratos. Ele é sempre generoso. Se nos deu a vocação, não no-la tirará. Nós é que podemos mudar. O que temos que fazer é cumprir o que prometemos. Oferecemo-nos ao senhor; portanto… para a frente é que é o caminho, custe o que custar.
104. Para a missão. Os vossos votos são votos de missionários e de missionárias. Quando os fazeis ou renovais, deveis ter em mente a missão, expressando os vossos desejos de colaborar na evangelização. No nosso voto deve estar a perspectiva de servir a missão, mesmo com risco da própria vida, felizes por morrer na linha da frente. Quando emitis ou renovais os votos, lembrai-vos de tudo isto, e o senhor estará convosco.
Pobreza evangélica[1]
105. “Dei-vos o exemplo” (Jo 13, 15). Jesus viveu em conformidade com todas as virtudes, mas há uma que é mais marcante e que nos deve servir de modelo: a pobreza. Segundo são Paulo, “Ele embora fosse rico tornou-se pobre por vossa causa, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8, 9). Realmente ele foi pobre no nascimento, mais pobre na vida, paupérrimo na cruz. Jesus nasceu pobre por opção própria, escolhendo para mãe, maria, que era uma mulher pobre, e para pai, são José que com o seu trabalho de carpinteiro ganhava o necessário para viverem. Durante a sua vida pública pôde afirmar: “o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20). Como primeira das bem-aventuranças proclamou: “Felizes de vós, os pobres, porque o Reino de Deus vos pertence” (Lc 6, 20). Até para ser sepultado precisou dum lençol e dum sepulcro emprestados.
O exemplo e os ensinamentos do senhor são o primeiro e mais poderoso estímulo para nos levar a apreciar, amar e praticar a pobreza, a nós que devemos e queremos imitá-lo. Todos os santos seguiram o seu exemplo amando e vi vendo a pobreza. São francisco de Assis chamava-lhe “a sua senhora”.
106. Vida das virtudes. Todas as outras virtudes recebem, de alguma maneira, vida da pobreza. De facto, se examinarmos cada uma das virtudes, veremos que todas elas só existem e se desenvolvem se houver amor à pobreza. Pode a fé subsistir sem a pobreza? Como pode alguém dizer que tem fé se – apesar de saber que Jesus disse “Bem-aventurados os pobres” – se deslumbra com a riqueza? Infelizmente pode acontecer que haja entre nós quem caia nessa situação. Se tivermos fé, temos que pensar, falar e agir segundo este princípio da fé: “Bem-aventurados os pobres!”.
A esperança é uma virtude completamente projectada para o paraíso e não se apega às coisas terrenas. Diz o autor do livro sagrado: “Feliz o rico que se conserva íntegro e não corre atrás do ouro. Quem é esse homem? Nós o felicitaremos porque realizou uma coisa maravilhosa no meio do seu povo” (Sir 31, 8-9). É tão fácil pôr a própria segurança no dinheiro! É preciso resistir e dizer: “Em ti, senhor pus a minha esperança!”.
Nem o amor de Deus pode subsistir sem a pobreza em espírito. Para amar a Deus de todo o coração não pode haver apego às coisas, senão o coração fica dividido. O motivo por que tantas pessoas se desprendem dos bens materiais e abraçam a pobreza voluntária é exactamente para terem o coração liberto a fim de poderem amar a Deus e darem-se totalmente a ele. Mesmo para fazer obras a favor do próximo, é necessário ter o coração desimpedido das preocupações terrenas. São Bernardo dizia, acerca da santidade, que deveríamos ser conchas e não canais. Mas, acerca da pobreza, eu digo que devemos ser somente canais e não conchas. É a pobreza que garante o ardor missionário. São Bernardo aplica ao desapego das coisas terrenas as palavras de Jesus: “E quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32) Conclui-se de tudo isto que só colaboraremos na evangelização dos povos na medida em que conseguirmos ser pobres, pelo menos em espírito.
107. Com a força do voto. O Senhor pôs como primeira condição ao jovem rico: “se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá o dinheiro aos pobres” (Mt 19, 21). Todas as congregações religiosas põem em primeiro lugar o voto de pobreza porque, segundo são Tomás, “a pobreza voluntária é o primeiro fundamento para atingir a perfeição”. Santo Inácio de Loyola define a pobreza como “a mu ralha de defesa das ordens religiosas”.
Uma congregação religiosa vive e prospera na medida em que conserva o espírito de pobreza. Quando uma comunidade cede neste campo, todo o espírito se desmorona. O mesmo se pode dizer de cada um dos seus membros: progridem no caminho da perfeição na medida em que forem fiéis à observância da pobreza prometida. Há que levar as coisas muito a sério. Quando se menospreza este voto, a comunidade caminha a passos largos para a ruína. Pelo contrário, se houver fidelidade às constituições, será abençoada no seu percurso.
O voto de pobreza consiste essencialmente na renúncia ao direito de usar e de dispor, a seu bel-prazer, dos bens materiais, sem depender do legítimo superior. Este é o voto “simples” na nossa congregação e no resto das congregações modernas. O voto “solene”, por sua vez, implica a renúncia radical à posse de qualquer propriedade de bens temporais. Nisto consiste a grande diferença entre o voto simples e o voto solene. Mas por que razão fazemos o voto simples? É que a pobreza não consiste no despojar-se de tudo, mas na renúncia ao direito de dispor, por próprio arbítrio – isto é, sem autorização do superior – seja dos bens da comunidade que dos próprios bens individuais. Esta renúncia é feita por amor ao senhor, que é a razão específica de ser deste voto. O “bem-aventurados os pobres” é para todos. Já o salmista dizia: “se a vossa riqueza aumenta, não depositeis nela o coração” (Sl 61, 11).
108. O necessário entre pobres. Diz são Bernardo que a pobreza, por si própria, não é uma virtude; é-o sim o amor à pobreza. Um pobre pode não ter dinheiro, sem que tal garanta que seja possuidor da virtude da pobreza. Os consagrados não devem somente evitar tudo o que é contrário ao voto, mas viver a pobreza em toda a sua perfeição.
O que é, então, necessário para alcançar a perfeição na virtude da pobreza? Eliminar tudo o que seja vaidade ou seja supérfluo, no vestir, na alimentação ou no mobiliário. São Paulo diz: “se temos que comer e com que nos vestir, fiquemos contentes com isso” (1Tm 6, 8). Fizemos voto de pobreza, contentemo-nos, portanto com o necessário.
Para crescer na virtude da pobreza torna-se necessário aceitar com paciência e, até com alegria, que haja ocasiões em que falte mesmo o necessário. É cómodo demais fazer o voto de pobreza e nunca sentir os efeitos dessa opção. Talvez se pudesse definir o voto de pobreza como o voto de ter tudo o que é necessário. Se desejarmos alguma coisa que não podemos obter, então faz-se um acto de pobreza. É precisamente o não ter tudo aquilo que se quereria que nos obriga a praticar a pobreza. Eu digo que é conveniente que, às vezes, nos venha a faltar o necessário. Este espírito ajudar-vos-á a não pretender tratamento especial na comunidade. Eu não gosto de excepções. Sim, sim, o que é necessário está bem, mas não vos esqueçais de que o Senhor nos ajuda em tudo o que é necessário enquanto pobres, mas não naquilo que é necessário enquanto ricos. Nunca será um bom missionário ou uma boa missionária quem não se habitua a eventuais privações.
Não se deve dar a desculpa de que o Instituto tem mui tos benfeitores. E depois, não vos esqueçais de que as ofertas dos benfeitores são fruto do seu sacrifício, o que requer da nossa parte não só que nos lembremos deles nas nossas orações mas que também correspondamos com a nossa quota-parte de sacrifício. Contentemo-nos, pois, com o estritamente necessário e, se for o caso, aceitemos até situações em que nem o necessário é possível. Os benfeitores, duma forma geral, asseguram o necessário. Quando leio a lista das ofertas na revista do Instituto, garanto-vos que faço uma profunda reflexão. De quando em quando sinto necessidade de interromper a leitura e de encomendar a Deus os nossos benfeitores. Quantos daqueles números ali escritos são lágrimas e sangue! E não havemos nós de nos sacrificar também alguma coisa?
A virtude da pobreza requer um total desapego das coisas necessárias e convenientes que usamos. É aqui que reside o essencial da pobreza de espírito. Lembrai-vos de que qualquer apego, mesmo pequeno, é um obstáculo no caminho da perfeição. Soltai o vosso coração de tudo e de todos. Um passarinho, esteja ele preso por uma corda ou por uma simples linha não pode voar. Não deve haver fios que vos prendam e, se os houver, fazei-os passar pelo Coração de Jesus donde sairá um fio de ouro: o da renúncia. No campo da missão, conseguireis trabalhar tanto melhor quanto mais fordes capazes de vos desapegar de tudo e de todos. Às vezes, vai-se para as missões a sonhar com o martírio e depois acaba-se por perder a cabeça por causa dum armário. É a ideia errada que fazemos do necessário. Todas estas dependências tiram-nos a paz do coração e, às vezes, afectam a própria obediência. É por isso que eu insisto em que não vos apegueis a nada, mesmo que seja insignificante, para que quando tiverdes de mudar de lugar, não sejais tentados a levar convosco todo o recheio da casa! Nas nossas comunidades deve cultivar-se este espírito de desprendimento e teremos, assim, a bênção do senhor.
109. Cuidar bem de tudo. O espírito de pobreza implica zelar por todas as coisas, utilizá-las com parcimónia e respeito. Há, às vezes, na comunidade, quem se preocupa em demasia com as próprias coisas e não tem o mínimo cuidado com as da comunidade como se estas não fossem de ninguém – o que não está certo, porque se não é lícito estragar o que é nosso, muito menos o é dar cabo do que é da comunidade. Isto não é só faltar à pobreza mas até à própria justiça. Este será talvez o ponto em que é preciso insistir mais.
O espírito de pobreza implica também o empenho de todos no uso correcto das coisas evitando qualquer desperdício pois, lembremo-nos, vivemos da caridade dos benfeitores. Registo, com muito prazer, quando vejo alguém zelar pelos bens da comunidade: uma luz não necessária que se apaga, uma porta ou uma janela que se segura, objectos deslocados que são postos no seu lugar, etc. Este cuidado pelas coisas da comunidade deve ser de todos. Há que cultivar este espírito: zelar por tudo. Vede, por exemplo, eu ainda uso o mesmo relógio de quando era estudante…
A pobreza é algo muito delicado a que é muito fácil faltar. Mesmo que tivéssemos muita abundância, não se deve dar mais do que o necessário. Repito-vos, são bens de Deus. Habituai-vos desde já a ter esta delicadeza, esta atenção no recto uso das coisas, para que quando chegardes às missões não vos torneis uns esbanjadores. Há que manter este espírito de união, de família. Todos se devem sentir empenhados no bem do Instituto. É assim que devemos proceder para que o bom Deus nos ajude agora e no futuro. Não devemos esperar ociosos na Providência; o senhor não é obrigado a fazer sempre milagres.
110. Trabalhar como os pobres. Falámos da pobreza como desapego afectivo e efectivo das coisas materiais. Mas a prática da pobreza tem ainda um outro aspecto que é o de trabalhar como trabalham os pobres. Nós, como missionários e missionárias, temos que trabalhar também materialmente. Quando trabalhamos, pensemos que estamos a poupar e a evitar despesas à comunidade e também isso é um dever no âmbito da virtude da pobreza. Temos que ser membros vivos, porque isto não é um colégio em que alguém paga, mas é uma família onde todos colaboramos por igual. Consideremo-nos felizes por podermos ser úteis fazendo o bem voluntariamente e também como um dever.
Se há consagrados que devem viver a pobreza duma forma radical esses são, sem sombra de dúvida, os missionários e as missionárias.
Castidade por amor do reino[2]
111. Sede castos. A excelência da castidade é enorme, como bem atestam as sagradas escrituras. O próprio redentor quis nascer duma mãe virgem. O apóstolo João amou de maneira particular o senhor porque era casto, virgem. O senhor confiou-lhe a sua mãe: confiou a virgem a um virgem.
Habitualmente, diz-se que a palavra “castidade” terá derivado da palavra “castigo”; e o motivo, segundo são To más, é que, nos castos, a concupiscência é castigada, isto é, mortificada por meio da razão. Como consagrados, vivemos a castidade virginal que consiste formalmente no propósito in terno, seguro, e constante de não consentir nada contrário à integridade virginal. O Pe. Semeria afirma que a castidade virginal não reside só no corpo, mas, mais propriamente, no espírito. O mesmo diz santo Agostinho: “quem duvida que a castidade, quando é virtude, reside no espírito? Ela nunca pode falhar enquanto se mantiver se gura no coração, na vontade”.
A castidade virginal é absolutamente necessária aos consagrados e às consagradas. Como missionários e missionárias estareis expostos a mil perigos, pelo que deveis estar bem firmes nesta virtude. Para praticar o bem junto das populações tendes que ser reconhecidos como seres “sobrenaturais” que nada têm a ver com este mundo: “Vós não sois deste mundo” (Jo 15, 19). Se fordes castos, com a vossa presença, atraireis os corações das pessoas e eu garanto-vos o sucesso nas vossas actividades. O senhor comunica-se aos puros de coração, que conseguirão fazer prodígios. A cada um de vós dirijo as palavras de são Paulo a Timóteo: “Conserva-te puro” (1Tm 5, 22). Como é que se pode meter vinho numa garrafa cheia de água? Despeja-se a água e mete-se o vinho. Assim também há que esvaziar o nosso coração de todas as paixões mundanas e enchê-lo de amor de Deus. Quero que sejais mais atraídos pela beleza da virtude do que pela fealdade do vício. Sede castos!
112. Em vista do sacerdócio. A Igreja católica, inspirada pelo Espírito santo, desde os tempos apostólicos que considera a castidade como uma virtude indispensável nos seus ministros. Se para o sacerdote todas as virtudes são necessárias, a castidade é-o de maneira particular. Exorto-vos, sobretudo a vós que vos preparais para o sacerdócio, que vos mentalizeis quanto à necessidade desta virtude. Um dos primeiros sinais da vocação é a castidade. É necessária uma castidade firme e segura. Procurai a pureza de vida, custe o que custar. Examinai-vos conscientemente se estais dispostos a conservar por toda a vida uma castidade perfeita e a fazer todo e qualquer sacrifício para a conservar. Se, confiando na ajuda divina, vos sentis com força e vontade, então coragem, não temais. Aquele Deus que é a vossa esperança será também a vossa fortaleza.
113. Virtude do coração. São Paulo escreveu aos Tessalonicenses: “Vós aprendestes de nós como deveis comportar-vos para agradar a Deus… Conheceis as instruções que vos demos em nome do senhor Jesus. A vontade de Deus é que vivais consagrados a Ele, que vos afasteis da libertinagem, que cada um saiba usar o próprio corpo na santidade e no respeito” (Ts 4, 1-4). E o Apóstolo insiste muito neste preceito. A castidade é a virtude do nosso coração! Não vos deixeis desanimar se fordes tentados. O ouro purifica-se no fogo e o senhor purifica-nos com estas fraquezas. Se for para nosso bem, Ele nos livrará. Sejamos humildes e confiantes e caminhemos com o senhor. Façamos actos de amor de Deus.
114. Tesouro em vasos de barro. A castidade é um “tesouro que trazemos em vasos de barro, para que todos reconheçam que esse incomparável poder pertence a Deus e não é propriedade nossa” (2Cor 4, 7); e para o guardar são necessárias a vigilância e, sobretudo, a oração. E isto é afirmado por todos: pela sagrada Escritura, pelos Padres da Igreja e pelos mestres espirituais. É preciso rezar, rezar bem, rezar sempre. Se a oração é necessária para se alcançarem todas as graças, é em modo particular necessária para se conservar a castidade. Diz são Cipriano: “De entre os meios para obter a castidade, o primeiro e o principal é a ajuda de Deus”. São Gregório, por sua vez, diz que “a oração é a tutela da pureza”. São João Crisóstomo afirma que o jejum e a oração são como duas asas que elevam a alma acima das tempestades, que a tornam mais ardente do que o fogo e mais terrível para os inimigos. E conclui: “nada nem ninguém é mais poderoso do que aquele que reza”.
Peçamos, portanto, ao senhor a castidade. Lembrai-vos de que não é suficiente rezar de vez em quando, rezar três “Ave-marias” de manhã e à noite, nem sequer o é apenas cumprir os actos de piedade ao longo do dia. É preciso ter espírito de oração. Tenhamos o costume, especialmente nas horas de dificuldade, de nos refugiarmos no Coração de Jesus. Era assim que fazia santo Agostinho, que encontrava amparo nas chagas do Divino salvador. Tentações sempre as haverá, mas, no Coração de Jesus, estaremos a salvo.
Um meio muito poderoso para nos mantermos castos é uma filial devoção a nossa senhora, dispensadora de todas as graças. Coloquemos a nossa castidade sob a sua especial protecção; consagremo-nos a ela. Rezemos ao senhor e ele nos concederá a graça de nos mantermos castos toda a vida.
Para guardar a castidade é também necessária a mortificação exterior e interior, como foi sempre posta em prática pelos santos de todos os tempos e por todas as pessoas que se propõem ser bons cristãos. São Paulo dizia “Castigo o meu corpo e mantenho-o submisso, para que não aconteça que, tendo pregado aos outros, venha eu próprio a ser eliminado” (1 Cor 9, 7). Satisfazer os desejos do corpo e não querer sofrer as consequências é loucura. “Porque os instintos egoístas têm desejos que estão contra o Espírito, e o Espírito contra os instintos egoístas; os dois estão em conflito, de modo que não fazeis o que quereis” (Gl 5, 17).
Há que controlar o apetite, isto é, comer para viver e para poder executar todas as tarefas e não viver para comer. Não digo que se evite o que é verdadeiramente necessário, mas há pequenas mortificações que se podem fazer. Mortificar os olhos: quero que sejais desinibidos, mas que sejais também reservados e respeitosos. Para adquirir este domínio sobre os próprios olhos é conveniente privarmo-nos, por vezes, mesmo daquilo que seria normal e lícito. É verdade que os santos eram capazes de, a partir de uma flor, elevar o seu pensamento para Deus, mas, às vezes, não é pior deixar de olhar para certas coisas. Ou habituar o corpo ao frio e ao calor e às incomodidades. E fugir do ócio procurando sempre alguma actividade, trabalhando não só por obediência ou por pobreza, mas também para domar o próprio corpo. E ainda, mortificar o orgulho, a soberba, exercitando a humildade. “Portanto aquele que julga estar de pé tome cuidado para não cair” (1Cor 10, 12). São Francisco de sales dizia que castidade sem humildade é vaidade.
Tenho a certeza de que, nas missões, estareis seguros e confiantes nesta área, porque o senhor abundará com as suas graças se viverdes em união com ele e puserdes em prática todas estas orientações.
A obediência missionária
115. Habitual para todos. Dos três votos, o mais excelente é o da obediência. Por ele, de facto, oferece-se a Deus mais do que se oferece pela pobreza e pela castidade.
A virtude da obediência deve estar sempre presente. Notai o exemplo de Jesus: “Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo: Ele tinha a condição divina, mas não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e mor te de cruz!” (Fl 2, 5-8). “o meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34). “Aquele que me enviou está comigo. Ele não me deixou sozinho, porque faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8,29).
Dizem os santos que a obediência é o caminho seguro para o paraíso. São João Crisóstomo diz mesmo que é “navegação segura e porta do céu”. Santo Agostinho acrescenta que a obediência é o garante de todas as outras virtudes. São Tomás, por seu lado, afirma que é superior às outras virtudes, porque oferece a Deus o melhor dom, o dom da nossa vontade.
A obediência faz milagres e, se fordes obedientes, também vós os fareis, sobretudo no campo da evangelização. Não é o fazer muito ou pouco que é importante. O que interessa realmente é obedecer. É a obediência que ajuda a neutralizar em nós a soberba e nos traz a paz de espírito. Só assim teremos a certeza de cumprir a vontade de Deus. Aqui não há lugar para as meias vontades ou para as meias obediências.
116. Virtude fundamental. Numa comunidade religiosa, não se pode passar sem obediência. E menos ainda nas missões, como dizem as Constituições: “A virtude fundamental dum Instituto missionário é o espírito pronto de obediência absoluta aos superiores. Sem esta virtude não é possível a organização das actividades nem o êxito no apostolado”[3]. Estas palavras são transcritas à letra da Regra dos Padres Brancos. Na obediência estão compendiados todos os meios para, um dia, poderdes ser missionárias e missionários idóneos. Não me cansarei nunca de vos repetir: é preciso haver obediência absoluta se quiserdes ser bons missionários. Obediência não só às determinações expressas dos superiores mas também às simples indicações que vos façam. Em geral, os problemas que se verificam nas missões têm a sua principal raiz na falta de obediência. Esta é a virtude principal, a virtude fundamental do nosso Instituto que deve estar radicada em todos vós. Quero mesmo, como santo Inácio[4], que a obediência seja uma característica de todos vós.
117. Virtude sobrenatural. Temos que obedecer ao superior como se fosse a nosso senhor. É esta razão sobrenatural que dá valor e mérito à obediência. Obedecer por razões meramente humanas não é o que Deus quer de nós, pois nem por isso nos distinguiríamos dos que, no mundo, se sujeitam a quem manda ou porque não podem evitá-lo, ou por razões de lucro, ou ainda por respeito humano. Nós temos que ver Deus nos superiores. Gravai-o bem na vossa mente: é absolutamente necessário que a nossa obediência tenha uma motivação sobrenatural. É preciso ter fé e não se limitar à máscara ou às aparências. Ai de quem obedece julgando só obedecer a uma pessoa e não for capaz de ver Deus nos superiores. Quem tem espírito de fé não terá dificuldade em obedecer a qualquer superior, e a qualquer que seja a ordem emanada.
118. Universal, imediata, cordial e simples. As nossas Constituições dizem que a obediência deve ser universal, imediata e cordial. Vêm depois, a modo de coroamento, a simplicidade e a generosidade que constituem a obediência cega. Obediência universal consiste, antes de mais, em obedecer a todos os superiores sem distinção. Quem não pratica esta obediência não pode agradar ao senhor, nem progredirá no caminho da santidade. Consiste também em não distinguir entre as várias maneiras de mandar, entre coisas grandes e pequenas, entre o essencial e o acessório. É este o espírito que desejo que cultiveis. Não deveis obedecer só genericamente, mas também nos mais pequenos pormenores. O senhor premiará a nossa obediência e ajudar-nos-á a realizar tarefas difíceis. O que é feito por simples capricho nunca terá bom êxito porque lhe faltará sempre a bênção divina.
Segundo são Bernardo, o autêntico obediente não conhece hesitações e está sempre pronto a aceitar e a executar as ordens dos superiores. A obediência pronta deve ser o nosso pão de cada dia, de cada hora e minuto. Não se pode chamar verdadeira obediência à que fazemos quando hesitamos ou executamos as ordens, cada um à sua maneira. Nem todo o bem que se faz é bem feito. Só o é quando for feito de acordo com a vontade do senhor. Tem que se fazer não o que cada um quer, mas o que se estabelece, por obediência. Quem descuida estas disposições não só não tem espírito de obediência como nem sequer vive o espírito de comunidade.
Além de pronta, a obediência tem que ser cordial. São Paulo diz: “Damos graças a Deus, porque éreis escravos do pecado mas obedecestes de coração ao ensinamento básico que vos foi transmitido” (Rm 6, 17). Se não se obedecer de coração, a obediência é imperfeita e sem mérito. São Bernardo diz que a alegria no rosto e a doçura nas palavras são um complemento da obediência. Obedecer, portanto, de coração, e não à força.
Há que estar sempre prontos a obedecer. Se achardes que há dificuldades ou observações a fazer, manifestai-as, mas depois obedecei com boa disposição. “Deus ama quem dá com alegria” (2 Cor 9,7). Como fica mal manifestar no rosto, nos gestos ou nas palavras o desacordo à obediência!
A obediência perfeita tem três graus: executar as ordens, aderir à vontade do superior e aceitar, com a nossa inteligência, quanto nos é ordenado. Temos que ser generosos e não nos contentarmos só com o primeiro grau ou com o segundo; devemos ir até ao fundo, vergando o nosso próprio parecer. Esta é a verdadeira obediência cega – mas que vê muito – que acata com simplicidade as disposições emanadas pondo-as em prática. Então vereis que, até de pernas para o ar, caminhareis mais seguros e tranquilos. Obedecer cegamente não quer dizer fazer as coisas às cegas; antes, deveis ter os olhos bem abertos para cumprirdes as vossas tarefas da melhor maneira possível. Assim entendida, vereis como a obediência é sábia. Examinai-vos com frequência sobre a prática da obediência e fazei o pro- pó sito de tenderdes à respectiva perfeição. Quem obedece cegamente tem a vista muito boa e consegue penetrar nas coisas espirituais, porque vê com os olhos do próprio Deus.
119. Formação na obediência. Os principais meios para a formação na obediência são, antes de mais, a humildade. Quem é humilde reconhece quando se engana e não se apega às próprias ideias. E mesmo que o superior se engane na ordem dada, nunca se erra no cumprimento dessa mesma ordem. Também se deve ver Deus nos superiores e nas suas ordens. Além disso, temos o exemplo de nosso Senhor, que foi obediente até à morte na cruz. Por fim, devemos seguir o exemplo dos santos. A obediência é a esperteza dos santos!
120. Obediência às Constituições. São Vicente de Paulo, quando resolveu dar uma Regra à sua Congregação, fê-lo com estas palavras: “Apresento-vos as Regras que o Senhor me inspirou; recebei-as de mim como se fosse das mãos de Deus”. Se ele assim disse, também eu o posso dizer. Posso garantir-vos, de facto, que foi o próprio Deus que me dirigiu nesta tarefa. Não estou a falar em manifestações extraordinárias, mas asseguro-vos que foi mesmo o senhor que me guiou de forma natural. O meu desejo é que as recebais com espírito de fé. Digamos que a vossa santificação depende da maneira como as puserdes em prática. Estudai-as e cumpri-as dando a máxima importância a tudo até ao mínimo pormenor. É tudo ouro. Eu confio muito na sua observância para fortalecer o espírito da comunidade. Isto não é um colégio; é sim uma família onde devemos ajudar-nos mutuamente no caminho da santidade. Cada membro da comunidade deveria ser uma coluna do Instituto, de forma que os vindouros possam ver em vós um modelo a imitar. Se, por hipótese, se perdessem as Constituições, cada um de vós devia ser um manual vi vente e permanente das mesmas Constituições.
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[1] José Allamano, em carta de 8 de dezembro de 1916, apresentou um Tratta- to sulla povertà (“Tratado sobre a pobreza”) em que ilustrava o significado do voto e da virtude da pobreza, com todas as aplicações práticas às exigências da vida consagrada à missão. numa conferência às duas comunidades, a 5 de Ja neiro de 1917, anunciou-o com as seguintes palavras: “Havia já algum tempo que eu queria oferecer-vos um mini-tratado sobre a santa Pobreza e, em dois anos, com a ajuda do Cónego T. Camisassa, eis que se concluiu a respectiva composição. Baseado em grandes teólogos do calibre de são Tomás de Aquino, suárez, santo Afonso e outros, recolhemos para aqui tudo o que goza de certeza, ponde- rando cada palavra, para sermos exactos. Recebei-o como palavra do vosso superior e, portanto de Deus. que Deus vos ilumine e dê graça bastante para entenderdes e viverdes bem o voto e a virtude da pobreza, de que depende o espírito e a saúde do Instituto”. nestas páginas relatam-se o espírito e a essência deste tratado, mesmo sem ser expressamente citado.
[2] A teologia ascética da época de J. Allamano entendia a virtude da castidade perfeita por amor do Reino mais do ponto de vista moral. Ele, que discordava desta maneira de ver, detinha-se mais sobre a teologia da castidade, que também conhecia muito bem e propunha aos seus ouvintes, desenvolvendo mais largamente os cuidados a ter com a sua observância.
[3] José Allamano está a citar aqui o artigo 37 das Constituições dos missio ná rios (1909) e o artigo 45 das Constituições das Irmãs missionárias (1913).
[4] José Allamano interiorizou a “Carta sobre a obediência” que santo Inácio de loyola endereçara à comunidade dos Jesuítas, propondo aos missionários e às missionárias da Consolata tanto a letra como o respectivo espírito. A renovação que entretanto se deu na Igreja sobre a prática desta virtude, associando-lhe o diálogo, também inclui a atitude de disponibilidade total para a obediência, que José Allamano designa por “perfeição da obediência” ou “obediência cega”. Aqui, conservaremos essa terminologia embora já se não use muito, para assim podermos exprimir melhor a profundidade do seu pensamento.